Pequena carta para minha filha

Então você chegou… Veio. Surgiu. Passou a existir. O instante pelo qual eu tanto esperava passa a ser o agora – e o sempre. Você já constituía um algo antes mesmo de receber a claridade em seus olhos, de os grunhidos abafados se converterem num som mais perceptível, de sentir outra pele tocando a sua, de se deslocar do ‘dentro’ para o ‘fora’. Já era antes, e agora É.

Assim como fiz quando do nascimento do seu irmão, escrevo-lhe algumas poucas palavras. É uma espécie de relato confidencial que torno público. Uma confidencialidade que se torna coletiva, pois compartilho a minha breve fala para que eu possa ser sempre por ti lembrado. Uma mistura de comprometimentos, para não dizer promessas, com apontamentos sugestivos, para não dizer conselhos. Uma carta aberta na qual busco externalizar um pouco daquilo que preenche o meu íntimo nessas suas poucas horas de vida.

Viva. Independente das circunstâncias presentes, dos fatores que te rondem, dos ocorridos que te surjam, dos eventos que te acometam, deves viver aproveitando aquilo que tem para ser aproveitado. O cenário em que crescer pode não ser dos melhores, ou, se for permitido algum espaço para que uma dose mínima de otimismo prevaleça, a coisa pode estar um pouco melhor do que hoje. Seja como for, a questão é que deves contemplar a vida como algo único, uma oportunidade rara da qual não se pode abrir mão facilmente. Enfrente para que a sua seja plena e bem vivida. A vida é algo que deve ser afirmado. Afirme a sua por si própria, amando-a do jeito que ela for.

Seja você. O mundo nos impõe papéis, muitos dos quais não conseguimos fugir – por mais que tentemos (seu pai veste terno mais por conveniência e necessidade do que por gosto). Vivemos com regras, mas não viva por elas. Muitas fazem sentido, outras nem tanto. O jeito é aprender a conviver com a normativas do meio em que vive da melhor forma possível, irresignando-se e transgredindo quando for necessário, assim como acatando o que é posto em respeito ao que for justo. Fuja daquilo que é imposto cuja base é uma autojustificativa. Sempre há brechas, saídas ou subterfúgios úteis e aptos a serem utilizados – ouse discordar, enfrentar, romper, infringir. Arrisque.

O respeito é algo que se conquista, mas pode ser exigido quando necessário – o que é diferente de impor. Não quero impô-lo contigo. Buscarei conquistar e cobrar a exigência quando necessário for.

Erros serão cometidos – e muitos. Por mim e por você. Suportemos mutuamente. Esteja disposta sempre a perdoar quando o arrependimento for sincero. Eu estarei aqui, sempre de braços abertos por ti e para ti.

Você tem o seu valor. Não aceite que lhe digam qual é o que deve fazer segundo o que pensam, ou ainda qual caminho deve seguir. A escolha será sempre sua. Por mais que não possas fugir de um direcionamento pré-determinado em sua criação, é você que define o que será, qual trajeto percorrerá, o lado para o qual olhará, o ar que irá respirar, a fonte da qual beberá para saciar sua sede… Não deixe que digam por você.

Mocinha ou bandida, princesa ou guerreira, rainha ou serva – é você quem dirá o que vai ser!

Aprenda o não: a ouvir e a dizer.

O mundo é dinâmico e volátil, mas há um ponto em que ele é harmônico. Encontre esse ponto e estabeleça os sentidos possíveis para o seu viver a partir dele. Até mesmo o reconhecimento da ausência de sentido pode ser tomado como norte de condução do seu trilhar, convertendo essa constatação numa forma de sentido para que a partir dela possa prosseguir.

Há várias formas de enxergar as coisas, de ver o mundo, de encarar as situações, de se relacionar com as pessoas, de interpretar os fenômenos… Encontre a sua a partir daquilo que julgar ser o mais certo. Seja adotando uma visão relativista das coisas, ou ainda objetivista, estabeleça suas premissas para que a partir delas guie o seu próprio direcionamento. Tenha antes, porém, uma base firme e sólida para definir suas opções. Dizem que uma casa construída sobre a areia não se sustenta. Para que tenhas um chão firme, no qual possa pisar sem erro de vacilar, deves solidificar o seu solo – e isso requer muita parcimônia e muito esmero. Somente a vida (vivendo-a) poderá te fornecer as bases para essa construção do seu trilhar. Somado a isso vem o estudo. Apoie-se nos livros – respire-os, devore-os, viva-os. Não caia no terreno da ignorância – por mais que muitos dessa massa irrefletida não saibam o que fazem, o resultado das ações desses são bastante significativas, interferindo no viver de todos, inclusive no seu. Por isso o clamor para que se paute em bases sólidas, as quais são possíveis somente através de um árduo (e ao mesmo tempo extasiante) e constante processo de busca pelo conhecimento, estabelecendo essa pesquisa num interminável exercício de reflexão e crítica. É o que te permitirá enxergar além e compreender melhor o que poucos conseguem observar.

Minha filha, amada filha, há ainda muito o que dizer, mas as palavras não bastariam. Resguardo-me para que esse muito seja dito na nossa caminhada, juntos. Reservo-me também para que a maioria dos ensinamentos (sempre mútuos), aqueles que não cabem nas palavras, sejam transmitidos e aprendidos no decorrer do nosso viver. Quero te ver crescer, engatinhar, falar e caminhar até que seus próprios passos literais tornem-se figurados.

Aprendi um pouco de ‘ser pai’ com o seu irmão. Continuarei aprendendo contigo. Sigamos nesse processo, nessa experiência, nesse aprendizado, nesse viver.

Não poderei te proteger sempre, mas darei o meu melhor. Não poderei te influenciar somente com coisas boas, mas farei o possível que o vacilo seja em menor parte. Não poderei tomar as suas lágrimas como se minhas fossem, mas estarei sempre ao seu lado para fornecer um ombro verdadeiramente amigo.

Estou e estarei contigo. Pai e filha. Filha e pai. Minha filha: eu amo você!


Fonte da imagem:

https://files.mormonsud.net/wp-content/uploads/2017/11/carta.jpg

 

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