E se tocássemos aquilo que é representado pelo dito?

O dito é algo que se situa entre o que se buscar expressar e a coisa sobre a qual se fala. A coisa em si e o que se busca dizer sobre ela são questões distintas – assim como aquilo que é efetivamente dito, havendo aí uma ponte que as une. É nessa ponte que reside a significação, donde se extrairão os elementos mínimos aptos a ensejar uma compreensão sobre aquilo que se intenciona dizer. Numa frase escrita, por exemplo, o caminho percorre a intenção do escritor, aquilo que se escreve e a coisa sobre a qual ali se fala. Têm-se assim três pontos percorridos para que o autor expresse aquilo que intenta. Nesse sentido, o que realmente representa aquilo que se busca representar pela escrita não acaba sendo alcançado totalmente como alguns acreditam. Por mais que muitas coisas comportam ser expressadas somente pelas palavras, a escrita é insuficiente para alcançar o todo. Escrever o âmago é uma tentativa que deve ser buscada incessantemente, pois é o que move o espírito literário, mas ao mesmo tempo em que se estando ciente da impossibilidade de alcance do cerne. De todo modo, pode-se ter que as palavras não bastam, mas elas nos servem.

Que a filosofia da linguagem e a linguística fiquem com as problemáticas tantas inerentes do fenômeno comunicacional humano. A estrutura linguística é um vasto campo que percorre por diversas questões da linguagem humana em seus aspectos semânticos, fonéticos, sociais e afins. Não é bem essa a preocupação que fundaciona o exercício aqui realizado – a não ser a premissa retirada dessa base no sentido de que a palavra não diz efetivamente a coisa. O que se busca é meramente imaginar e transpor o que aconteceria se aquilo de que o dito fala pudesse ser plenamente alcançado.

Imagine um cenário no qual a palavra realmente dissesse a coisa. Indo além: imagine uma dada situação na qual os três pontos (intenção do autor, palavra escrita e a coisa em si) formasse um elo tão estruturante que os tornasse algo único. Uma verdadeira revolução, ao estilo da copernicana, seria instaurada. A coisa em si finalmente seria alcançada mediante um método de transpor essa coisa para que ficasse fixada num escrito. A volatilidade dos fenômenos todos seria rompida mediante a imposição de uma forma de apreender o exato momento da coisa pelo belo formato das palavras. Heráclito seria vencido ao menos no que tange à permanência do fluxo em algo único que congelaria aquele momento por algo que é dito e expressado. O dinâmico seria convertido em estático. A coisa em si, solta no mundo, seria agrilhoada pelas palavras, passando ali a residir, tornando-se aquilo que daquele modo se apresenta: pela palavra.

A satisfação do escritor seria incomensurável. Eureka! O cerne encontrado. A Verdade, com “V”, alcançada em sua plenitude – pelo menos para os fins pretendidos e buscados incansavelmente por aqueles que se situam no mundo da escrita. Finalmente o objeto que por tanto tempo se buscou capturar estaria preso. Não haveria mais caminho a ser percorrido, pois o destino passaria a ser o instante que perduraria para sempre. Ali, na escrita e por ela, a coisa em si, que até então era meramente representada pela palavra, estaria fundida em sua própria representação. Significante e significado num único ente – que seria também ao mesmo tempo Ser. Aquele processo descoberto resultaria na possibilidade de se tocar a própria coisa. O metafísico ao alcance do concreto. O dito capturando aquilo que até então se entendia por essência. A relação entre sujeito e objeto não comportariam mais qualquer tipo de vicissitude, pois toda e qualquer influência presente nesse processo de captura psíquica da coisa em si, que resulta na impossibilidade de alcance do todo, estaria solapada – ao menos, é sempre bom reiterar, no campo da escrita que diz a coisa plenamente em sua verdadeira forma. Acabadas estariam as problemáticas inerentes desse fenômeno da relação sujeito e objeto. Fim. Alcance pleno e resposta obtida. Nada mais depois disso – ou haveria um algo além? Sempre há…(?)

Um cenário como esse é possível ser vislumbrado somente no campo do hipotético. O alcance efetivo da coisa em si em toda a sua plenitude, sabe-se, é tarefa impossível, em que pese as buscas nesse sentido continuam sendo incansavelmente feitas – e assim deve ser, pois é o que faz com que a roda continue girando. A dificuldade é tamanha que até mesmo no campo da imaginação, sem qualquer amarra, resta pendente o elemento primordial que constituiria uma possibilidade de efetivo alcance da coisa em si, de modo que o próprio exercício de se tentar pensar a questão acaba constituindo uma prova da impossibilidade de se tocar a coisa através do dito, da palavra, da escrita…

E se fosse possível tocar aquilo que é representado pelo dito? Talvez todas as respostas seriam finalmente encontradas, mas faltam hoje palavras para tentar descrever essa situação hipotética.


Fonte da imagem:

https://ichef.bbci.co.uk/news/660/cpsprodpb/62DB/production/_103970352_gettyimages-175489635.jpg

 

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