OBRA DE ARTE DA SEMANA: Monumento sepulcral de Bernabò Visconti de Bonino da Campione


Bonino da Campione e assistentes, Monumento sepulcral de Bernabò Visconti ou Arca de Bernabò Visconti, mármore com traços de douradura e policromia, 1363-1385/1386. Conservado no Castello Sforzesco, Milão, Itália.

Em 1363, pouco mais de vinte anos antes de sua morte em 1385, o governante de Milão Bernabò Visconti encomendou a criação de uma estátua equestre para seu monumento funerário – sendo a encomenda de sepulcros durante a vida uma prática bastante comum na época. Após a sua morte, seu sobrinho e sucessor Gian Galeazzo ordenou a construção do sarcófago que abrigaria seu corpo e seria colocado sob a estátua. O todo, que era recoberto de folhas de ouro e prata e pintado e que lembra a Arca de São Pedro Mártir de Balduccio (1339), foi posicionado no altar da igreja de San Giovanni in Conca, em Milão, tendo sido o primeiro monumento equestre em um local de tão grande prestígio e importância sagrada, elevando, dessa maneira, o morto quase à santidade. Ainda é importante dizer que tanto a sua datação precisa quanto à atribuição de sua criação ao artista Bonino da Campione já causaram bastante controvérsia. Hoje, o grupo escultórico é conservado no Castello Sforzesco, antiga sede do poder e morada dos Visconti.

Entretanto, o mais interessante no estudo dessa obra é seu complexo programa iconográfico, que coloca a evidência o poder dos Visconti como senhores de Milão e protetores de seu povo, evocando o perfeito ideal de guerreiro cristão, sendo assim também uma lembrança de sua aliança com a Igreja. Para essa análise, me basearei principalmente no fascinante artigo de Allison Lee Palmer.

Primeiramente, temos a figura de Bernabò (Barnabé, em português) como guerreiro cristão, esculpido em tamanho real e com os traços de seu rosto estilizados, sem a intenção de retratá-lo de forma fiel. Ele figura sobre o cavalo em uma típica representação aristocrática – além de ser associado à nobreza, o cavalo também faz alusão à viagem da alma ao além, que se acreditava que era feita montada em um cavalo -, vestindo uma armadura da época e segurando em sua mão direita o bastão de comando. No peito e nas costas de sua armadura, vemos a imagem de um dragão que devora uma pessoa que faz alusão ao brasão da família Visconti, que com o passar do tempo passou de serpente a dragão, sendo que alguns historiadores tendem a ver o humano devorado como os estados que foram dominados pelos Visconti. Havia, também, uma lenda popular na época de que um dragão que morava nos arredores da cidade de Milão fora morto por um de seus antepassados, Uberto Visconti. Além disso, não podemos esquecer a associação a São George – que aparece em um dos painéis do sarcófago logo abaixo – o vencedor de um dragão, visto frequentemente como a vitória do Cristo sobre Satã ou o mal.

Do lado direito e esquerdo do cavalo, temos as alegorias da Justiça e da Fortaleza, respectivamente, duas das virtudes importantes a um bom governante. Ambas são representadas como donzelas trajando vestidos da época e a personificação da Justiça carrega uma balança, enquanto a da Força tem ao seu lado um leão.

O sarcófago retangular é decorado por painéis em cada um dos seus lados e é coroado por anjos em cada um de seus ângulos. Inscrições douradas em latim aparecem em toda a volta do sarcófago em sua parte superior, identificando as cenas e seus personagens.

O painel que ficava de frente para os fieis que se postavam frente ao altar, representa o Cristo crucificado ladeado de santos. Ajoelhados sob a proteção da cruz, temos a Madalena à esquerda do Cristo e Bernabò à direita. São George usando armadura e portando uma espada toca em suas costas, apresentando-o ao Cristo, enquanto a Virgem Maria está ao seu lado com as mãos juntas, rezando e intercedendo por ele. Os santos representados em volta do grupo central são ligados à família Visconti ou à devoção popular milanesa, que, podia, dessa maneira, rezar para as figuras santas no sarcófago, colocando assim os governantes da cidade em estreita relação com a Igreja e funcionando quase como intermediários entre o povo e os santos.

Na extrema direita do Cristo, por exemplo, há a figura de São Cristóvão segurando o menino Jesus, um santo que se tornou popular por oferecer proteção contra a praga, praga esta que assolou Milão diversas vezes no século XIV e contra a qual Bernabò foi o primeiro a instituir leis de quarentena. Ao lado dele, temos Santa Catarina de Alexandria, protetora da filha de Bernabò.

Do lado oposto do sarcófago, temos o chamado “Homem das Dores”, uma prefiguração do Cristo no Antigo Testamento, ladeado pela Virgem e pelo Evangelista. Os santos que aparecem aqui também possuem importante ligação com a dinastia dos Visconti e/ou são objetos do culto popular local. Por exemplo, São Barnabé, homônimo do governante, considerado o primeiro Bispo de Milão; São Bernardo, que lutava contra heresia, representada como um diabinho aos seus pés, e pregava para que os jovens se juntassem à Guerra Santa nas Cruzadas; e São João Batista, ao qual à igreja na qual foi colocado o monumento era dedicada.

Em uma das pontas do retângulo, temos sentados em uma mesa escrevendo os quatro evangelistas, reconhecíveis pelos animais que os representam e figuram ao lado de suas cabeças: o leão de São Marcos, o anjo ou o homem de São Mateus – aqui, ausente -, o touro de São Lucas e a águia de São João.

No último painel, vemos a coroação da Virgem pelo Cristo, envoltos por anjos que tocam instrumentos musicais. À direita da cena, temos a representação de São Ambrósio em um pilar, sendo São Ambrósio o patrono de Milão. Aqui, ele aparece segurando um chicote na mão direita para metaforicamente afastar os inimigos da cidade, assim como faziam os Visconti.

Finalmente, as doze colunas que elevam o monumento, conferindo grandiosidade e glorificando o morto, fazem referência ao Santo Sepulcro ou aos doze apóstolos. Colunas eram usadas para demarcar os limites dos territórios dos reis lombardos no início da Idade Média, lembrando assim os territórios conquistados pelos Visconti e inserindo-os na tradição dos reis da Lombardia.

Dessa maneira, podemos perceber que as figuras e os temas representados – e a maneira como foram figurados -, foram profundamente estudadas no intuito de glorificar Bernabò Visconti, exaltando e afirmando o poder, por consequência, de toda a sua dinastia.

Bibliografia / Links:

Allison Lee Palmer, « Bonino da Campione’s Equestrian Monument of Bernabò Visconti and Popular /Piety in the Late Middle Ages » in Arte Lombarda, No. 121 (1997), p. 57-67.
https://www.jstor.org/stable/43132401?read-now=1&seq=1#page_scan_tab_contents

“Bonino da Campione e collaboratori, Arca di Bernabò Visconti” in Castello Sforzesco, [Online]. Consultado em 16/09/2019.
https://arteantica.milanocastello.it/it/content/bonino-da-campione-e-collaboratori-arca-di-bernab%C3%B2-visconti

“Visconti Family” in Enciclopaedia Britannica, [Online]. Consultado em 17/09/2019.
https://www.britannica.com/topic/Visconti-family#ref290722

Fonte das imagens:

Fotografias da autora.

https://arteantica.milanocastello.it/it/content/bonino-da-campione-e-collaboratori-arca-di-bernab%C3%B2-visconti

 

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