OBRA DE ARTE DA SEMANA: ‘Autorretrato com colar de espinhos e beija-flor’, de Frida Kahlo


Frida Kahlo, Autorretrato com colar de espinhos e beija-flor, óleo sobre tela, 61,2 x 47 cm, 1940. Conservado no Harry Ramson Center, Universidade do Texas, Austin, EUA.

Frida Kahlo é conhecida por seus autorretratos, inconfundíveis pelas sobrancelhas unidas e seus trajes indígenas tradicionais que adotou no intuito de valorizar a cultura nacional e suas origens mexicanas pelo lado de sua mãe – seu pai era alemão filho de judeus húngaros. Suas pinturas também são muito conhecidas por expressar os grandes sofrimentos de sua vida – os físicos, oriundos da poliomielite da infância, do acidente de ônibus na juventude, e das inúmeras operações na coluna e no pé pelas quais passaria ao longo da vida; e os psicológicos devido à sua saúde instável, com a morte sempre pairando sobre si, e o turbulento relacionamento com seu marido, o muralista Diego Rivera, mulherengo e narcisista.

Apesar de todos esses problemas, Frida via beleza na vida – e até mesmo na morte -, adotando uma postura forte e determinada em continuar vivendo. Essa força, vemos em diversos de seus autorretratos através de um olhar impassível e estoico. Entretanto, trata-se de uma máscara que esconde seu sofrimento, assim como ela fazia quando falava com seus amigos e brincava com suas próprias dores.

Outros elementos nos mostram como ela estava sofrendo no período que pintou Autorretrato com colar de espinhos e beija-flor, depois de se separar de Diego e terminar o relacionamento com o fotógrafo Nickolas Muray, que, inclusive, foi quem acabou comprando esta tela.

O símbolo mais claro de sofrimento é o colar de espinhos que adorna seu pescoço, furando sua pele em alguns pontos dos quais escorre sangue, e que nos lembra a coroa de espinhos do Cristo crucificado. Um adorno parecido, porém, menor, aparece em outra tela do mesmo ano, Autorretrato dedicado ao Dr. Eloesser. Vale notar que no México imagens bastante fortes, quase chocantes, do Cristo ou santos sofrendo é muito comum, estando presente em grande parte das igrejas. A própria Frida, apesar de rejeitar a religião, teve uma educação católica e possuía em sua casa uma dessas imagens, tendo adotado em sua pintura símbolos e composições que se inspiram da arte religiosa cristã. A automutilação e o sangue também remete à tradição asteca – Frida se interessava muito pela cultura pré-colombiana e seu marido possuía uma grande coleção de ícones do período -, com seus sacríficos humanos e a crença de que perfurar a pele para derramar sangue garantiria boas colheitas.


Frida Kahlo, Autorretrato dedicado ao Dr. Eloesser, óleo sobre tela, 1940. Coleção particular.

Nos retratos do período de sua separação, durante o qual tentou produzir mais obras para se sustentar sozinha, ela aparece com frequência acompanhada de animais e outras figuras. Na obra que estudamos hoje, o macaco-aranha de nome Caimito de Guaybal (“fruto da goiabeira”) que está no seu ombro direito e parece brincar com seu colar como uma criança distraída com a mãe foi um presente de Diego, e, de certa maneira, o substitui, assim como aos filhos que Frida sempre quis ter, mas nunca conseguiu devido aos seus problemas de saúde, e, agora, separada de Diego, nunca teria. Sua relação com Diego também era bastante ambígua, e, quando Frida estava bem de saúde, cuidava do marido de maneira maternal.

Apesar de pequeno e aparentemente inofensivo, o macaco que parece compadecer de seu sofrimento é uma criatura selvagem e a qualquer puxão descuidado do colar poderia machucar ainda mais a pele de Frida. Sua selvageria animal evoca a da própria artista que se esconde sob sua máscara de calma.

O seu pendente à direita é um gato igualmente negro, que, apesar de ser um animal tido como doméstico, parece muito mais feroz e ameaçador. Hayden Herrera, em sua biografia da pintora, indica que ele estaria pronto a dar o bote no beija-flor morto pendurado no colar, entretanto, ele me parece olhar para outro ponto fora da tela que não podemos enxergar. Ele poderia representar diversas ameaças, mas, a mim, também parece estar pronto a defender Frida.

É interessante que os dois animais contrastam em sua aparência dócil X feroz. Seria uma representação de dois humores opostos da artista?

Quanto ao beija-flor, segundo Herrera, Frida se sentia ligada à essa espécie. Seus amigos diziam que ela andava com a leveza ligeira de um beija-flor e ela até mesmo pintou suas sobrancelhas na forma do pássaro em um desenho de 1946. Além disso, no México acreditava-se que o beija-flor poderia ser usado como amuleto para trazer sorte no amor, sorte que ela definitivamente andava precisando. Ainda, animal morto pode significar que a pintora estava se sentindo assassinada como ele.

Folhagens e outros elementos vegetais aparecem com frequência na pintura de Frida, que quanto mais o tempo passava, mais se sentia conectada com o cosmos e a natureza, vendo nesta última a fertilidade que ela própria não possuía. Entretanto, aqui a folhagem luxuriante pintada de maneira detalhista – assim como o restante da pintura -, parece sufocante, assim como o colar que circunda seu pescoço. De certa forma, é provável que apesar de conectada com a natureza e os animais, ela se sentisse sozinha e pudesse ser sufocada por seus “conectores” a qualquer momento, explica Herrera.

Dessa maneira, Frida expressa seus sofrimentos, mas à certa distância, tal qual aconteceria no caso da representação de uma divindade. Ainda segundo Herrera, se não houvesse essa distância psicológica, criada por sua automitologização, a tristeza poderia ser esmagadora. “Frida se converte em um ícone que ela – e outros – podem adorar, transcendendo, assim, a dor.” (Herrera, 1983).

Bibliografia/Links:

Hayden Herrera, Frida, São Paulo, Biblioteca Azul / Globo, 2011. Trad. Renato Marques.
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Susie Hodge, Breve história da arte moderna, São Paulo, Editora Gustavo Gili, 2019, p. 116-117. Trad. Julia da Rosa Simões.
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Fontes das imagens:

https://www.fridakahlo.org/

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