OBRA DE ARTE DA SEMANA: ‘O arrebatamento de Psiquê, de William Bouguereau


William-Adolphe Bouguereau, Le ravissement de Psyché (O arrebatamento de Psiquê), óleo sobre tela, 209 x 120 cm, 1895. Coleção particular.

O mito de Eros – ou Cupido – e Psiquê é amplamente representado na arte desde a Antiguidade, sendo facilmente reconhecível através das asas de anjo de Cupido e da asas de borboleta de Psiquê, pois, em grego (Ψυχήpsyché) designa  tanto a palavra « alma », quanto « borboleta . A fonte mais famosa que nos conta a história de Psiquê é o conto do romano Apuleio que faz parte de sua obra As metamorfoses ou O asno de ouro, do século II.

A belíssima mortal Psiquê – a palavra Ψυχήpsyché, em grego, significa tanto « alma », quanto « borboleta » – provoca a ira de Afrodite/Vênus, deusa do amor e da beleza, por simplesmente ser muito bela e lhe roubar involuntariamente os adoradores. Assim, a deusa pede a seu filho Cupido que faça a mortal se apaixonar por um ser repugnante e abaixo dela, mas acaba se espetando com sua própria flecha e se apaixona por ela. O deus inspira o oráculo a dizer a seus pais que a deixem em uma colina para se casar com um ser temido por homens e deuses, ao que eles, amedrontados, obedecem. Depois de ser deixada para o que pensam ser sua morte, o vento Zéfiro a levanta nos ares e a transporta para um local com relva macia, sobre a qual ela adormece. Quando acorda, encontra nas proximidades um lindo palácio, no qual ela passa a viver, com todos os seus desejos sendo atendidos por criados invisíveis, entretanto, seus encontros com seu marido se davam somente no escuro. Um dia, impingida pela curiosidade, ela acende uma vela e, em vez de um monstro, se depara com o belíssimo deus do amor. Uma gota de azeite da lamparina cai sobre ele, que, desapontado pela desconfiança de sua esposa, desaparece junto com o palácio. Psiquê, desolada, vai até o templo de Vênus, que por sua vez lhe dá tarefas quase impossíveis de serem realizadas, mas, contando com ajuda, ela consegue realiza-las. A última tarefa era a de pedir a Perséfone/Proserpina, esposa de Hades/Plutão, um pouco de sua beleza. A deusa entrega a Psiquê uma caixa ou frasco supostamente contendo o que foi pedido por Vênus, e, a curiosa mortal abre o recipiente, caindo em um sono profundo, próximo da morte. Seu amado marido a perdoa e a acorda com uma ligeira espetada com a ponta de uma de suas flechas e, depois disso, pede a Zeus/Júpiter que ela se torna imortal, ao que ele consente. O mito é então uma alusão à transcendência da alma (psiquê) e a conquista da imortalidade após a vida terrena, além do encontro da alma humana com o amor celeste; com o amor sendo considerado um princípio de elevação espiritual capaz de abrir o coração à experiência do divino em várias crenças e filosofias (Battistini, 2002).

Em O arrebatamento de Psiquê, de Bouguereau, frequentemente traduzido como O rapto de Psiquê vemos um momento que não existe na história resumida acima. Pela paisagem ao fundo, poderíamos pensar se tratar do momento no qual Zéfiro a carrega das rochas na qual foi deixada pelos seus pais para o palácio de Cupido, entretanto, na pintura quem aparece é o próprio deus sob os traços de um belo adolescente alado – como Apuleio nos conta que ele seria e como vemos em várias outros quadros do artista, que pintou o tema repetidamente. Além disso, Psiquê está seminua e parece em êxtase – uma das traduções para a palavra “ravissement”, do título original em francês da pintura indica esse sentido, por isso prefiro usar o ambíguo “arrebatamento”, que pode também representar algo positivo, ao invés do vocábulo “rapto”, negativo. Assim, vemos a mortal sorrir, em um êxtase quase sexual, sendo que, se esse fosse o momento no qual ela é levada por Zéfiro, ela estaria com medo, teria chorado, como descreve o escritor, pois pensa ir em direção a sua morte, não a um belo palácio onde encontrará seu grande amor. A composição do artista é, então, imaginada e não proveniente de uma parte específica do mito; ao contrário, pode-se concluir que se trata de uma representação do final feliz no final da história ou da imagem do encontro da alma humana com o amor celeste, tema caro aos neoplatonistas na Renascença, tempo que era tido como um dos mais importantes para os acadêmicos da época de Bouguereau.

Quanto ao êxtase quase sexual ou sonhador que vemos no rosto da mulher, é possível pensar que se trata das intenções comerciais do artista, que vendia pinturas agradáveis a um público de ricos burgueses clientes de seu marchar Durand Ruel. Ou seja, eram imagens que frequentemente mostravam belas mulheres que agradavam aos olhos masculinos, mas eram descentes o suficiente para serem penduradas nas paredes de suas casas. O artista era duramente criticado na época – enquanto ele pintava temas tradicionais de maneira acadêmica e sentimental, os impressionistas, que ele criticava, inovavam e abriam caminho para as vanguardas do século seguinte – e continua sendo por muitos historiadores da arte e curadores atuais que não o levam a sério, justamente pela falta de inovação e significado em suas obras, como criticado pelos artistas contrários ao academicismo em seu tempo. Depois de sua morte, seus quadros, que o tornaram bem-sucedido, caíram de moda – o auge dos artistas de vanguarda e suas vidas de excesso era a voga do momento – e há pouco tempo atrás podiam ser comprados por somas razoáveis. Entretanto, nas últimas décadas, em parte pela volta da pintura figurativa na arte contemporânea e do hiperrealismo, além do estímulo de colecionadores que possuem obras de Bouguereau – e claramente têm interesse em valorizá-las -, seu trabalho tem voltado a despertar o interesse de alguns curadores – o Montreal Museum of Fine Arts lhe dedicou uma mostra – e de compradores, seu preço tendo súbito assustadoramente em apenas alguns anos.

Apesar disso, a maestria técnica do artista na pintura a óleo e a beleza – para ele, a arte deveria ser estritamente bela – e sensibilidade de suas pinturas ainda encantam espectadores, com reproduções de suas obras sendo vendidas em profusão. É certo que ele não fazia parte dos movimentos inovadores de seu tempo, que mudariam a história da arte para sempre, entretanto, negar-lhe um lugar nessa mesma história não me parece justo.

Bibliografia / Links:

Thomas BULFINCH, O livro de ouro da mitologia: Histórias de deuses e heróis [The Age of Fable], Rio de Janeiro, Ediouro, 2006, p. 89-97. Trad. David Jardim.

« L’amour »,  in Matilde BATTISTINI, Symboles et allégories [Simboli ed allegorie], Paris, Hazan, 2004, p. 334. Trad. Dominique Férault.

Grace GLUECK, « Art View; To Bouguereau, Art Was Strickly ‘The Beautiful’» in The New York Times, [Online], https://www.nytimes.com/1985/01/06/arts/art-view-to-bouguereau-art-was-strickly-the-beautiful.html  (Consultado em 15/06/2020).

« Eros »,  « Psique » in Pierre GRIMAL, Dicionário da mitologia grega e romana [Dictionnaire de la mythologie grecque et romaine], Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, p. 148-149, 399-400. Trad. Victor Jabouille.

Mark ROTH, « Gifted artist? Bouguereau’s work controversial more than a century after his death » in Pittsburgh Post-Gazette, [Online], https://www.post-gazette.com/frontpage/2007/08/20/Gifted-artist-Bouguereau-s-work-controversial-more-than-a-century-after-his-death/stories/200708200191  (Consultado em 15/06/2020).

« L’Âne d’or ou les Métamorphoses/Texte entier » in Wikisource, [Online], https://fr.wikisource.org/wiki/L%E2%80%99%C3%82ne_d%E2%80%99or_ou_les_M%C3%A9tamorphoses/Texte_entier  (Consultado em 15/06/2020).

 « William-Adolphe Bouguereau » in Enciclopaedia Britannica, [Online], https://www.britannica.com/art/Prix-de-Rome (Consultado em 15/06/2020).

« William Bouguereau » in Rehs Galleries, [Online], http://www.rehs.com/william_a_bouguereau_la_frileuse.html (Consultado em 15/06/2020).

 

Fonte das imagens :

https://pt.wikipedia.org/

 

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