OBRA DE ARTE DA SEMANA: O ‘Templo de Oxalá’, de Rubem Valentim

Recentemente, a galeria paulistana Almeida e Dale apresentou uma exposição sobre o artista baiano Rubem Valentim (1922-1991), comemorando o centenário de seu nascimento, que coincide com os cem anos da Semana de Arte Moderna, e foi assim que conheci o Templo de Oxalá, uma série de obras que homenageiam o orixá. A maior parte das vinte esculturas e dez relevos que compõe a mostra foram expostas na 14a Bienal Internacional de São Paulo, em 1977, em uma sala dedicada ao criador. É a primeira vez, desde então, que tais peças são mostradas juntas, fora do MAM – Museu de Arte Moderna – Bahia, localizado em Salvador, sendo a instituição que possui o maior número de peças do artista no país, que dedica toda uma sala – agora restaurada, assim como as esculturas que a povoam – ao Templo de Oxalá. Além das esculturas do MAM, foram expostos objetos que pertencem ao Instituto Rubem Valentim, sediado em São Paulo, e ao acervo do Museu de Arte de Brasília, tendo o artista vivido nas três cidades: Salvador, São Paulo e Brasília. 

Rubem Valentim em seu estúdio
Exposição Ilê Funfun: uma homenagem ao centenário de Rubem Valentim na Galeria Almeida e Dale, em São Paulo

Oxalá, também chamado de Obàtálá, é o mais importante do panteão iorubá – um dos maiores grupos étnicos-linguísticos africanos, ao qual pertencia a maioria dos escravizados trazidos para o Brasil. Esse deus é ligado à criação do mundo e dos homens, sendo associado ao Cristo no sincretismo da umbanda. Ainda é importante notar que a palavra “Obàtálá” significa “o senhor do pano branco”, com o branco como cor predominante do orixá e das representações em Templo de Oxalá. Já o título da mostra, Ilê Funfun, faz referência à cor branca através da palavra “funfun”, enquanto que “ilê” significa “casa” ou “terreiro” no idioma iorubá. Assim, vemos esculturas imaculadamente brancas, que remetem à luz, e parecem tanto símbolos mágicos, quanto totens, no caso daquelas em ronde bosse, ou seja, que se desprendem de uma superfície vertical, podendo o espectador andar ao seu redor. São figuras de seu próprio universo recriadas através de figuras geométricas.

Rubem Valentim, Templo de Oxalá, madeira e acrílico, 250 x 100 x 74 cm, 1977.
Rubem Valentim, Relevo emblema 78, acrílico sobre madeira, 70 x 120 x 5 cm, 1978.

Segundo o curador do MAM Bahia, Daniel Rangel:

“[…] a exposição Ilê Funfun apresenta o Templo de Oxalá, um conjunto muito especial de vinte esculturas e dez relevos de Rubem Valentim, em que a cor branca é predominante e há a representação do panteão dos orixás saudando Obàtálá. A analogia que a obra faz a uma possível festa para Oxalá, na qual as esculturas são divindades vestidas de branco em louvor ao orixá funfun, é o ponto de partida da narrativa proposta.”

Exposição Ilê Funfun: uma homenagem ao centenário de Rubem Valentim na Galeria Almeida e Dale, em São Paulo

Nascido em Salvador, cidade repleta de igrejas católicas e de grande importância para as religiões de matriz africana no Brasil, o artista começa sua pesquisa ligada à religião de seus ancestrais africanos na década de 1950 – lembremos que no atual cenário da arte contemporânea, busca-se, cada vez mais, trazer à luz o trabalho de artistas negros, africanos e afrodescendentes, que, infelizmente, ainda são a minoria daqueles apresentados pelas grandes instituições e representados pelas grandes galerias. 

Mas, ao invés de representar os orixás e seus símbolos de maneira figurativa, Valentim os desconstrói e reconstrói através de formas geométricas, aliadas a cores e linhas, criando assim sua própria interpretação visual universal do tema, que conhecia bem, pois integrava o conselho do terreiro de Mãe Senhora – uma das figuras mais respeitadas da história do candomblé, que teve um papel importante na descriminalização deste no país, além da difusão das tradições africanas. 

Apesar de não fazer formalmente parte dessas correntes artísticas, esse uso das formas geométricas, linhas e cores estava alinhado tanto com o movimento construtivista, quanto ao neoconstrutivista, os mais relevantes da cena artística brasileira na época. Entretanto, o segundo era menos racionalista, pois valorizava-se esses elementos visuais, mas admitindo o trabalho intuitivo do artista e a representação de algo que ultrapasse o visível.

Dentista de formação, Valentim foi entrando na arte aos pouquinhos, mergulhando cada vez mais fundo. Inicialmente, se dedicou à pintura, de maneira autodidata, e depois à escultura, tanto em alto relevo, quanto em ronde bosse, consolidando seu trabalho tridimensional na época que morou em Brasília e se viu em meio a sua monumentalidade. Grande parte de suas esculturas foi realizada em madeira, que depois era recoberta de pintura acrílica, como é o caso das obras do Templo de Oxalá.

Exposição Ilê Funfun: uma homenagem ao centenário de Rubem Valentim na Galeria Almeida e Dale, em São Paulo
Exposição Ilê Funfun: uma homenagem ao centenário de Rubem Valentim na Galeria Almeida e Dale, em São Paulo

Bibliografia:

Marcos Grinspum FERRAZ, “A linguagem afro-brasileira e universal de Rubem Valentim” in ARTE!Brasileiros, [Online]. Consultado em 28/06/2022.
https://artebrasileiros.com.br/arte/exposicoes/9023a-linguagem-afro-brasileira-e-universal-de-rubem-valentim/

Ilê funfun: uma homenagem ao centenário de Rubem Valentim, (Catálogo da exposição de 01 de abril a 27 de maio de 2022 de, Almeida e Dale Galeria, São Paulo; de 10 de julho a 07 de agosto de 2022, Museu Nacional da República, Brasília; 09 de novembro de 2022 a 22 de janeiro de 2023, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador) São Paulo, Almeida e Dale Galeria, 2022.

“Ilê funfun: uma homenagem ao centenário de Rubem Valentim” in Almeida e Dale, [Online]. Consultado em 28/06/2022.
https://www.almeidaedale.com.br/pt/exposicoes/ile-funfun-uma-homenagem-ao-centenario-de-rubem-valentim

Almerinda da Silva LOPES, Arte abstrata no Brasil, Belo Horizonte, Editora C/Arte, 2010.

O Museu de Arte Moderna da Bahia, São Paulo, Banco Safra, 2008, p. 193-205.
Disponível em: https://online.flippingbook.com/view/394273/206-207/

“Rubem Valentim” in Enciclopédia Itaú Cultural, [Online]. Consultado em 15/06/2022.
https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa8766/rubem-valentim

Fonte das imagens: Divulgação
https://www.almeidaedale.com.br
https://online.flippingbook.com/view/394273/206-207/

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