“talvez um instrumento o que se houve ao fundo”: poesia e mercadoria

Capitalismo em crise, recrudescimento da desigualdade social, mercadoria e propaganda anestesiam as sociedades integradas e a poesia cada vez mais acossada nesse mundo. Inventividade formal e com a questão “Qual o lugar da poesia na contemporaneidade?” na cabeça, Guto Leite, professor de Literatura Brasileira na UFRGS, em seu sexto livro de poemas, esboça ou uma saída ou apenas uma inquietação sobre viver nesse tempo. talvez um instrumento o que se houve ao fundo tem tensões a todo instante, a começar pelo ‘houve’ do título, e segue, nas suas três partes, em diálogo com A divina comédia, construindo um caminho pedregoso que é próprio da poesia nos tempos de reificação do todo ser humano.

O livro está dividido em três partes: “A queda”, “Versículos sórdidos” e “Imagens do paraíso”. Na primeira, para estabelecer o diálogo com o “Inferno”, nos deparamos com um muro de palavras que oprimi sem ao menos lermos as palavras. Em um fluxo contínuo, ser vírgulas e qualquer indicação de pausa ou ponto, vinte tantas páginas se seguem, com a morte ao lado e uma espécie de fantasma de leitura, já que sem indicações textuais é o leitor quem preenche essa lacuna. A propaganda preenche as lacunas da vida, tornando as sociedades aprazíveis em aparência, escondendo as tensões sociais. Guto inverte o jogo e cria buracos para, propositadamente, serem completados (ou não) por quem o lê.

Inquietações e dubiedades formais já se fazem presente na primeira parte, como “estarindo”, “apgar”, “pá lidas”, “li berdade”. No texto corrido, parecem indicar certa fragmentação do pensamento ou reflexos do mundo às avessas que vivemos hoje (e no Brasil há sempre especificidades). Em certo momento da “Queda”, uma passagem-chave para entender a quem o livro busca (também) combater: “…máscaras do desejo a que apelidei de mundo real…”. A propaganda e a mercadoria mascaram os problemas e oferecem soluções de vida superficiais, falsamente transformadores, e que perpetuam os papéis e classes na sociedade. O eu lírico, “agora morto” em sua subjetividade, luta para resgatar resquícios de sobriedade em meio ao mundo catártico do espetáculo e do capitalismo que buscam acabar com a subjetividade, com a reflexão dos sujeitos.

Em oposição à primeira parte, “Versículos sórdidos” oprime pelo seu vazio. Enquanto na “Queda” o espaço para respirar era pouco já que as palavras ocupavam toda folha, agora são dísticos e pequenos poemas que compõe essa segunda parte. A sensação de desalento é grande e conseguida com sucesso pelo autor. Não há em que se agarrar e os pequenos poemas funcionam como estocadas, tiros curtos e profundos no leitor.

se teu verso não causa
náusea ou suicídio
é propaganda

Esse é o poema que abre a segunda parte, ocupando o centro da folha. É também o poema da contracapa e é talvez o mais importante para se entender o livro a partir dessa chave que venho mostrando. Três versos, curtos, rápidos, imediatos como a mercadoria, mas trazendo elementos que pedem que o leitor pare e leia de novo. O eu lírico se coloca firme diante de suas concepções e provoca: a propaganda não gera desconforto, não gera atrito, mas sim um falso sentimento de plenitude.

“Versículos sórdidos” é a parte mas objetiva do livro, no qual emergem críticas e críticas da sociedade atual (não só a brasileira). “o infarto / da modele plus size / ninguém achou bonito” volta com o problema do espetáculo, reificando a vida de pessoas famosas e tornando essas modelos de vida para o resto. Aqui, fala da modelo plus size mas diz respeito às modelos que são padrão de beleza, e essas que são as figuras reificadas da moda. O assunto voltará na terceira parte ao falar do futebol, em especial do Barcelona.

Fica a dúvida se o livro é mobilizante ou imbobilizante. Em mais um momento de dubiedade, dois poemas se chocam, um em cada página, quase espelhados, que opõe a apatia à ação: “não há nos livros / de qualquer estante / prazer parecido / com suicidar-se” ao passo que sua outra face é “podemos até seguir debatendo / a revolução / mas o negócio é queimar a casa deles”. Convoca à ação, assim como na primeira parte “…ame fabule sorria foda cante lute escreva poesia tal como se houvesse chance”, mas sempre há um véu que não nos deixa perceber claramente a posição do eu lírico. Este se vale muito da ironia para colocar suas críticas, como “a caverna / ao menos / era real” ou “ninguém se lembra mais”. A caverna, do plano das idéias, era mais real que a sociedade do espetáculo hoje em dia. Ninguém se lembra mais dos pop-stars que surgem e desaparecem em meses. A superficialidade toma conta e torna-se regra na sociedade regida pelas aparências.

“Imagens do paraíso”, composto basicamente por poemas mais convencionais e por isso um pouco mais ameno, segue debatendo os temas até então construídos. “Para sempre”, “poema tirado de duas notícias de jornal” e “viva o futebol” talvez sejam os melhores exemplos. O primeiro recupera o dístico da segunda parte “ninguém se lembra mais” para de novo ironizar com “para sempre”. A dimensão de que produto = felicidade retorna em meio agora a outros questionamentos. “poema tirado de duas notícias de jornal”, em relação/homenagem a Manuel Bandeira, traz a ferida aberta da Ditadura Militar no Brasil ao falar de Vladimir Herzog e da falta de memória e justiça. “Viva o futebol” é a crônica dos dias atuais. O esporte que se tornou pura mercadoria, afastando-se das classes mais baixas e aumentando o abismo já grande entre Europa e América Latina, aqui especificamente sobre o Rio Grande do Sul, Brasil.

Há poucos elementos que marquem o local de onde parte o discurso do autor. Uma referência a Porto Alegre na primeira parte; “Viva o futebol”, na terceira, comparando os gastos com o pagamento das estrelas do Barcelona que implicam no não pagamento dos professores estaduais do RS, no desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo; a uma referência ao bairro Cidade Baixa em uma nota de rodapé no poema “adornos finais”, também da terceira parte.

O problema do atual estágio da mercadoria diz respeito a todos os países, mas os efeitos e problemas do capitalismo em geral chegam antes às periferias, como é o caso do Brasil. Ao falar dos altíssimos salários dos jogadores na Europa, relaciona-se imediatamente a falta de condições de vida básica em algumas várias partes do Brasil e de outros países subdesenvolvidos. A propaganda globalizada também atinge a todos, logo, Guto fala sobre o mundo e seus mecanismos de opressão e alienação. De maneira provocativa, a dubiedade do livro reforça o impasse nosso de cada dia, de agir ou resignar-se, sendo este impulsionado pelo capitalismo e pelo espetáculo, e aquele pelas pessoas que ainda esperam um mundo melhor.

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