Inhotim: Um museu de arte contemporânea a céu aberto

O início da minha visita ao Inhotim, jardim botânico e museu de arte contemporânea a céu aberto, composto de 23 galerias e muitas esculturas em meio a um parque de 140 hectares, foi um pouco atribulado. Indo de BH sem acesso a um carro, é possível chegar lá através de ônibus ou ônibus turístico, e as estradas são bem esburacadas. Além disso, estava chovendo, mas era o único dia na nossa viagem em que eu poderia mostrar a minha irmã esse magnífico lugar que eu já havia visitado alguns anos antes e ficado completamente apaixonada.


Esculturas de Edgard de Souza

Visitar em dia de chuva pode ser um pouco desagradável, pois se perde parte da beleza do local, que, em minha opinião, é muito mais interessante de ser visto a pé. Existe a possibilidade de comprar capas de chuva descartáveis por 10 reais cada uma e um transporte interno pelo qual o visitante pode optar pelo valor de 30 reais, realizado através de carrinhos de golfe. Entretanto, demoramos muito para nos orientarmos nas rotas propostas nesse tipo de trajeto, além de, em alguns pontos, os carrinhos não nos deixarem exatamente em frente ao pavilhão a ser visto. A proposta é que se veja também alguns jardins, mas se a meta do visitante é focar na arte, como no meu caso, ou se o visitante não puder ou não quiser andar muito, acaba não sendo tão interessante.

Pouco tempo depois de nossa chegada, o sol apareceu e levou embora o mau humor embolorado do dia chuvoso, e assim nossa visita se tornou muito mais agradável. Até então, havíamos visto algumas obras, começando por uma de minhas favoritas, a Forty Part Motet, de Janet Cardiff, sobre a qual já falei aqui no Obra de Arte da Semana, e na qual 40 alto-falantes reproduzem cada um a voz de um integrante do coral da Catedral de Salisbury cantando a composição polifônica renascentista Spem in Alium, de Thomas Tallis, provavelmente composta para a rainha Elizabeth I. É simplesmente celestial e o espectador se sente verdadeiramente em meio ao coral, percebendo como cada cantor escuta o que os outros cantam, elemento essencial para a harmonia do todo, sendo assim uma reflexão das relações e espaços interpessoais. Também, se o visitante manter os olhos fechados, pode sentir a tridimensionalidade da instalação, outro ponto importante para a criadora.


Forty Part Motet


Forty Part Motet

Antes de seguir nossa visita através das palavras, é importante notar que o Inhotim é bem grande e sem o auxílio dos carrinhos de golfe, e ainda assim se apressando bastante, é difícil ver tudo em um dia só. Quem tiver tempo, pode dormir em Brumadinho e fazer a visita em dois dias, mas a maioria das pessoas acaba vendo o lugar em somente uma jornada. Assim, fiz uma seleção de minhas obras favoritas, sobretudo aos que pretendem visitar o Inhotim durante um dia só. A ideia é comentar um pouco de cada uma dessas obras e depois escrever sobre elas na coluna Obra de Arte da Semana, já que outro problema que encontrei durante minha visita foi a falta de informação sobre algumas das criações apresentadas. Há, sim, placas explicativas com o nome do autor e algo sobre seu trabalho, entretanto, como arte contemporânea não é de fácil entendimento, principalmente para os leigos, acredito que algo mais direto e especifico sobre a obra apresentada, não somente sobre o trabalho do artista no geral, poderia ser muito interessante. Se essa que vos escreve, artista, graduada em história da arte, lendo sempre sobre o assunto e habituada a visitar exposições de arte contemporânea não entendeu algumas obras, imagine quem não está acostumado a ter contato com obras de arte? No ônibus de volta, alguns de nossos colegas de transporte comentavam superficialmente como o local era bonito – é possível visita-lo só pelo seu paisagismo e contato com a natureza, por que não? – e as obras interessantes, porém os comentários eram clichês e superficiais, pois eles simplesmente pouco haviam entendido das obras propriamente ditas e, mesmo assim, me parecia que eles tinham sede de compreendê-las. Posteriormente, uma amiga me disse que os funcionários que ficam na porta das galerias sabem informar os visitantes sobre seus conteúdos, então, vale a tentativa de perguntar. Outra opção interessante é a visita mediada, com um monitor explicando algumas das obras ao espectador.

Partindo para as obras, daria para escrever um texto inteiro só sobre os pavilhões dedicados ao trabalho do Tunga, a Galeria Psicoativa Tunga, com várias obras do artista, e a Galeria True Rouge, que abriga a criação de mesmo nome, que inclusive foi a primeira a ter um pavilhão no local que se tornaria o museu.


True Rouge

A True Rouge é chamada pelo artista de instauração, ao invés de instalação, pois, como feito na inauguração da obra quando instalada em outros locais, Tunga organizou uma performance-ritual na ocasião, na qual artistas performáticos nus jogavam sobre si mesmos os líquidos vermelhos encontrados nos frascos que compõe a obra, uma alusão ao sangue e aos processos vitais. É interessante notar como os objetos pendem do teto em estruturas de madeira que lembram aquelas que seguram marionetes, sendo essa obra a primeira criada pelo artista usando esse esquema, com os fios e redes por toda parte, característicos de seu trabalho. Seríamos somente marionetes dentro de nossos corpos humanos?

Outra obra parecida fica na Galeria Psicoativa Tunga, na qual, em vez do líquido vermelho, temos um líquido amarelo, que não pode deixar de lembrar urina, e elementos que parecem excrementos humanos. Os objetos dentro das redes de aço me lembraram intestinos em pleno movimento.

Ainda nessa galeria, outro detalhe interessante são as obras, tal como a Lézart (Lagarto, em português), que não possuem seus elementos unidos através de soldas, mas sim através de imãs, em uma crítica à escultura clássica. Em várias outras obras do artista a solda não é usada, mas sim tramas e fios de aço.


Lézart

Um dos temas que mais me toca é a morte e a passagem do tempo, e este é mostrado claramente na primeira obra que vemos ao entrar na Galeria Piscoativa Tunga, com um imenso esqueleto sem cabeça deitado sobre uma rede, e crânios pendurados de um dos lados da rede, também sem o uso da solda. As bengalas presentes em várias de suas obras seriam aqui uma alusão à velhice? A trama da rede e os fios me lembram também a tapeçaria do destino tecidas pelas parcas ou moiras da mitologia greco-romana.

Outra obra que gosto bastante, e sobre a qual também já falamos no Obra de Arte da Semana, é a Ahora juguemos a desaparecer do Carlos Garaicoa. Nela,  uma cidade de velas em forma de construções anônimas e famosas desaparece lentamente, para ser trocada após alguns dias. A ideia do artista é mostrar uma cidade global em constante troca, em permanente dinâmica de destruição e reconstrução, dinâmica própria aos tecidos urbanos, e em incessante guerra.


Ahora juguemos a desaparecer

Na Galeria Adriana Varejão, temos algumas obras da artista de mesmo nome que foi uma das fundadoras do Inhotim, junto ao empresário Bernardo de Mello Paz, na época seu marido. O local surgiu para abrigar a coleção de arte do casal e foi crescendo até se tornar o que é hoje. A criação mais interessante desse pavilhão, em minha opinião, é a Linda do Rosário, inspirada no desabamento do hotel de mesmo nome em 2002, no Rio de Janeiro. Entre as paredes de azulejos brancos despedaçada, fazendo alusão àqueles que caíram sobre um casal em um dos cômodos do prédio – os azulejos também são a marca registrada da artista -, vemos o que parecem órgãos, lembrando o desastre. Se o visitante olhar para cima, verá no alto pinturas de plantas carnívoras em vermelho, em uma perfeita alusão à carne entre os azulejos e a carne que seriam devoradas pelas plantas.


Galeria Adriana Varejão


Linda do Rosário

Também gostei muito da obra Neither da colombiana Doris Salcedo, na galeria de mesmo nome. Através de uma intervenção na própria arquitetura, a artista propõe uma reflexão acerca das paredes imaculadamente brancas das galerias, que arrancam a obra de seu contexto, com paredes que protegem ao mesmo tempo que separam, convidando o visitante a entrar em uma sala branca com grades de aço, que lembra tanto um quarto de manicômio, quanto um campo de concentração e as barreiras físicas e sociais marcas segregação nas grandes cidades.


Neither

Finalmente, gostei bastante da obra de Sara Ramo na Galeria Mata, na exposição coletiva temporária de jovens artistas em diálogo com artistas mais velhos de título Por aqui é tudo novo. É engraçado a nossa reação ao entrar na sala onde se encontra a obra Fissura e somente encontrar a placa explicativa. Ficamos procurando a obra e, o visitante atento, verá uma abertura em um cantinho da parede. Através dessa abertura, pode-se ver, tal qual observando por um buraco de fechadura, uma infinidade de objetos coletados manualmente pela artista. Sua intenção é o diálogo entre a ordem – da sala na qual se encontra o visitante – e a desordem – em meio aos objetos na sala ao lado – e a relação entre o oculto e o campo de visão.


Fissura


Fissura

Abaixo o link sobre as obras do Inhotim sobre as quais já escrevi para a coluna Obra de Arte da Semana:

Forty Part Motet, de Janet Cardiff:

https://artrianon.com/2018/08/14/obra-de-arte-da-semana-forty-part-motet-de-janet-cardiff-no-inhotim/

Ahora juguemos a desaparecer, de Carlos Garaicoa:

https://artrianon.com/2018/08/21/obra-de-arte-da-semana-ahora-juguemos-a-desaparecer-ii-de-carlos-garaicoa/

Bibliografia:

Adriana Varejão

“Linda do Rosário” in Inhotim, [Online]. Consultado em 05/09/2018.
http://inhotim.org.br/inhotim/arte-contemporanea/obras/linda-do-rosario

Doris Salcedo

“Galeria Doris Salcedo reabre após processo de restauro” in Inhotim, [Online]. Consultado em 05/09/2018.
http://www.inhotim.org.br/blog/galeria-doris-salcedo-reabre-apos-processo-de-restauro/


Carlos Garaicoa

“Ahora juguemos a desaparecer” in Arte! Brasileiros, [Online]. Consultado em 21/08/2018.
http://www.paginab.com.br/arte/ahora-juguemos-para-no-desaparecer/

“Carlos Garaicoa, Ahora juguemos a desaparecer (II), 2002” in Inhotim, [Online]. Consultado em 21/08/2018.
http://www.inhotim.org.br/inhotim/arte-contemporanea/obras/ahora-juguemos-a-desaparecer-ii/

“Carlos Garaicoa – Inaugurações 2012” in Inhotim Youtube, [Online]. Consultado em 21/08/2018.
https://www.youtube.com/watch?v=vNkW97a9qjI

“Carlos Garaicoa no Porto Seguro, São Paulo” in Canal Contemporâneo, [Online]. Consultado em 21/08/2018.
http://www.canalcontemporaneo.art.br/blog/archives/008089.html

Janet Cardiff

“Forty part motet” in Inhotim, [Online]. Consultado em 14/08/2018.
http://www.inhotim.org.br/inhotim/arte-contemporanea/obras/forty-part-motet/

“Forty Part Motet” in MoMA, [Online]. Consultado em 14/08/2018.
https://www.moma.org/collection/works/87291

“Janet Cardiff” in Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, [Online]. Consultado em 14/08/2018.
https://www.eba.ufmg.br/museologia/cardiff/index.html

“Janet Cardiff’s Forty Part Motet | TateShots” in Tate (Youtube), [Online]. Consultado em 14/08/2018.
https://www.youtube.com/watch?v=38ORiaia9r8

João Luiz Sampaio, “Música e silêncio numa tarde em Inhotim” in Estadão, [Online]. Consultado em 14/08/2018.
https://cultura.estadao.com.br/blogs/joao-luiz-sampaio/musica-e-silencio-numa-tarde-em-inhotim/

“One Collective Breath: Janet Cardiff’s ‘The Forty Part Motet’” in KQED Arts (Youtube), [Online]. Consultado em 14/08/2018.
https://www.youtube.com/watch?v=rZXBia5kuqY&feature=youtu.be

 “The Forty part motet” in Cardiff Miller , [Online]. Consultado em 14/08/2018.
https://www.cardiffmiller.com/artworks/inst/motet.html

Sara Ramo

“Fissura (da série Mapas)” in Inhotim, [Online]. Consultado em 05/09/2018.
http://www.inhotim.org.br/inhotim/arte-contemporanea/obras/fissura-da-serie-mapas/

“Inhotim abre duas novas exposições temporárias” in Inhotim, [Online]. Consultado em 05/09/2018.
http://www.inhotim.org.br/blog/inhotim-abre-duas-novas-exposicoes-temporarias/

Tunga

 “Cooking Crystals” in Tunga Oficial, [Online]. Consultado em 05/09/2018.
https://www.tungaoficial.com.br/pt/trabalhos/cooking-crystals-expanded/

“Lézart” in Inhotim, [Online]. Consultado em 05/09/2018.
http://inhotim.org.br/inhotim/arte-contemporanea/obras/lezart

“True Rouge” in Inhotim, [Online]. Consultado em 05/09/2018.
http://inhotim.org.br/inhotim/arte-contemporanea/obras/true-rouge/

Fonte das imagens:

Fotografias da escritora.

http://inhotim.org.br/inhotim/arte-contemporanea/obras/lezart

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