OBRA DE ARTE DA SEMANA: ‘Metamorfose de Narciso’ de Salvador Dalí

O mito grego de Narciso conta que havia um belo jovem, pelo qual muitos haviam se apaixonado, entre eles a ninfa Eco, entretanto, ele desprezava a todos os seus pretendentes. Em uma das versões, Eco, desconsolada, teria buscado refúgio em uma caverna e lá teria aos poucos desaparecido, sobrando somente sua voz. Os deuses puniram Narciso por desprezar o amor, fazendo-o ver o próprio reflexo, pelo qual se apaixonou. Ele teria se afogado ao tentar beijar a si mesmo, que admirava em uma fonte, ou definhado por não conseguir fazê-lo. Em seu lugar, nasceu a flor que chamamos de Narciso.

Assim, podemos ver em primeiro plano, duas figuras que fazem eco uma à outra: à esquerda, uma representação estilizada de Narciso sentado que se admira nas águas; e, à direita, fora da fonte, uma mão gigante que segura um ovo do qual nasce a flor Narciso. A simetria entre as duas imagens e a estilização da primeira sugere a transformação de Narciso, seu desaparecimento e o nascimento da flor.

Ainda mais há direita, em segundo plano, há um homem nu de costas, que lembra uma estátua por estar em uma plataforma elevada, e mostra como seria o belo Narciso em seu esplendor, antes de apaixonar-se por si mesmo.  

Entre as duas grandes figuras sobre as quais já falamos, há vários personagens pequeninos, que seriam os homens e mulheres rejeitados pelo belo jovem – “os heterossexuais”, ou um hindu, um catalão, um alemão, um russo, um americano, uma sueca e uma inglesa, segundo o poema de mesmo título criado pelo artista, o qual deveria ser lido enquanto se admirava a pintura, sendo assim, segundo ele, esse o primeiro conjunto de obras a surgir inteiramente do seu método da paranoia-crítica, uma espécie de maneira espontânea de criar através da associação de delírios.  

Na tela, há um emaranhado de símbolos em uma composição que evoca o subconsciente e o mundo dos sonhos através de uma técnica impecável. O artista foi em grande parte influenciado por Freud e pela psicanálise, como mostra grande parte de seus trabalhos que exploram o tema do recém-descoberto inconsciente. No ano seguinte a sua criação, em 1938, Dalí levou a pintura a Londres – ele a havia realizado em Paris – e mostrou a Freud, que no dia seguinte escreveu em uma carta ao escritor Stefan Zweig:

“Até hoje eu tive uma tendência a pensar que os surrealistas, que parecem ter me escolhido como seu santo patrono, eram completamente loucos. Mas esse jovem espanhol de olhos selvagens, com sua indubitável maestria técnica, me conduziu a uma opinião diferente. De fato, seria do maior interesse explorar analiticamente o crescimento de um trabalho como esse…” *

Segundo Rosa Maria Maurell, a pintura A Metamorfose de Narciso representaria o drama do amor, da morte e da transformação, sendo Gala, a esposa e musa do artista, a imagem do amor, sua salvadora que proporcionou sua transformação e a salvação de um destino trágico, como vemos na última estrofe do poema:

“Quando aquela cabeça racha
Quando aquela cabeça explode
Quando a cabeça se despedaça em pedaços
Será a flor,
O novo Narciso,
Gala,
Meu Narciso.”*

Finalmente, a paisagem que vemos no plano de fundo da pintura não é imaginária, mas inspirada de um lugar real na Catalunha, como acontece em várias obras de Dalí. Ainda segundo Rosa Maria Maurell, há uma fotografia – talvez tirada pela própria Gala – no Centros de Estudos Dalinianos, da Fundação Dalí, no qual pode-se ver o artista debruçado sobre uma piscina natural em Punta dels Tres Frares na baía de Galladera, entre o Cabo de Creus e El Port de la Selva. Assim, o que vemos ao fundo são as texturas das rochas do Cabo de Creus, que foi inspiração para outras paisagens do artista.


*Traduções da autora.


Bibliografia:

Thomas BULFINCH, O livro de ouro da mitologia. História de deuses e heróis, Ediouro, 2006 (34ª edição), p. 107-111. Trad. David Jardim.

Salvador DALÍ, La vie secrète de Salvador Dali, Paris, 2006 (primeira publicação em 1942). Trad. Michel Déon.

« Eco » in Pierre GRIMAL, Dicionário da Mitologia grega e romana, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, primeira publicação em 1951, p. 126-127. Trad. Victor Jabouille.

« Narciso » in Pierre GRIMAL, Dicionário da Mitologia grega e romana, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, primeira publicação em 1951, p. 322-323. Trad. Victor Jabouille.


Links:

Rosa Maria MAURELL, “Dalí and the myth of Narcissus” in Dalí Foundation/El Punt, [Online]. Consultado em 04/03/2020.
https://www.salvador-dali.org/en/research/archives-en-ligne/download-documents/10/dali-and-the-myth-of-narcissus

Terry RIGGS, “Metamorphosis of Narcissus” in Tate, [Online]. Consultado em 04/03/2020.
https://www.tate.org.uk/art/artworks/dali-metamorphosis-of-narcissus-t02343

 

Fontes das imagens:

https://www.tate.org.uk/art/artworks/dali-metamorphosis-of-narcissus-t02343

 

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