OBRA DE ARTE DA SEMANA: ‘Abaporu’ de Tarsila do Amaral


Tarsila do Amaral, Abaporu, óleo sobre tela, 85,3 x 73 cm,1928. Conservado no Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires, Buenos Aires, Argentina.

A obra mais cara da arte brasileira, que deu origem ao Manifesto antropófago, começou como um presente de aniversário que Tarsila do Amaral pintou o Abaporu para seu marido, o escritor Oswald de Andrade, em 1928. Quando recebeu a tela, o aniversariante teria ficado entusiasmado, disse que era a melhor pintura já feita pela esposa e a mostrou no mesmo dia ao amigo poeta Raul Bopp. Oswald teria dito que a figura sentada na vegetação e ladeada por uma planta estilizada parecia um antropófago, um homem da terra, ou seja, um autóctone do Brasil antes da chegada dos europeus, ligados à natureza e à vida em comunidade. Tarsila teria pego um dicionário de tupi-guarani e batizado a tela de Abaporu, sendo que “aba”, significa “homem”, e “poru”, “que come”, assim sendo “homem que come homem”. No Manifesto antropófago, o escritor defende a ideia de uma antropofagia – prática de algumas tribos de índios brasileiros, os quais comiam seus inimigos para se fortalecer com suas virtudes – figurada, com a criação através da deglutição do que é interessante na arte de fora do Brasil e a regurgitação de uma arte nacional.

A obra e o manifesto, junto com a Semana de Arte Moderna de 1922, marcam um ponto importante na emancipação da arte brasileira dos padrões acadêmicos e à imitação da arte que era feita na Europa, modelo ocidental na criação artística até então. Como outros artistas, Tarsila havia estudado na Europa, primeiro na Espanha, e, depois em Paris, quando teve Léger como mestre. Lá ela havia entrado em contato com os maiores gênios da época – por exemplo, Picasso – e foi influenciada pelas vanguardas modernistas. O cubismo foi uma influência muito importante, sobretudo, na estilização das linhas e nas formas que passariam a compor suas pinturas.

Ainda em Paris, em 1923, Tarsila pintou a tela A negra, – outro de seus trabalhos mais importantes – provavelmente inspirada pelas escravas da fazenda na qual cresceu no interior de São Paulo. Ou seja, a artista já se interessava pelos temas nacionais que se tornariam constantes em sua obra: os trabalhadores, as favelas – a preocupação com questões sociais se tornaria bastante importante em sua obras -, a natureza brasileira. As cores vibrantes de sua infância, consideradas pouco elegantes pelos mestres acadêmicos, passaram a dominar sua pintura.


Tarsila do Amaral, A negra, óleo sobre tela, 100 x 80 cm, 1923. Conservado no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.

Segundo a própria artista:

“Encontrei em Minas as cores que adorava em criança. Ensinaram-me depois que eram feias e caipiras. Mas depois vinguei-me da opressão, passando-as para as minhas telas: o azul puríssimo, rosa violáceo, amarelo vivo, verde cantante, …”

Em Abaporu, podemos ver justamente essas cores contrastantes: o azul puríssimo do céu tropical, o amarelo vivo do sol, o verde cantante da vegetação estilizada. É possível que a figura central da composição seja um trabalhador braçal, pardo ou queimado de sol, que tem os pés e as mãos de tamanho exagerado pela artista, que queria mostrar o esforço de seu trabalho físico. Entretanto, Tarsilinha do Amaral, sobrinha-neta da pintora, defende que possa se tratar de um autorretrato. Segundo ela, havia um espelho na casa de Tarsila que, da maneira que estava posicionado, mostraria a pessoa vista de baixo, deformada, e a artista teria se pintado, nua, conforme se via em seu reflexo. O que corroboraria a teoria, seria o fato de que, como ela, a personagem retratada possui o segundo dedo do pé maior do que o dedão.

Depois da separação do casal – Oswald tinha um caso com a jovem Pagu -, Tarsila ficou com a obra, mesmo tendo sido um presente de aniversário para o então marido, em troca de uma pintura do surrealista De Chirico, que valia muito mais.

Desde então, a tela foi exposta em um grande número de mostras importantes, até mesmo na Bienal de Veneza. Quando a artista finalmente a vendeu, nos anos 60, a Pietro Maria Bardi, criador do MASP, foi no intuito de que ela ganhasse um lar permanente no museu. Entretanto, ele o vendeu para um colecionador particular. Depois, um galerista a adquiriu e, em 1995, a leiloou na famosa Christie’s pelo US$ 1,35 milhão – valor recorde pago a uma obra brasileira – ao argentino Eduardo Constantini, fundador do Malba, Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires, da qual o Abaporu faz parte da coleção atualmente. Apesar de muitos brasileiros lamentarem a “perda” desse tesouro nacional, é, na verdade, muito interessante para a valorização da arte brasileira que nossos artistas figurem em coleções internacionais importantes. Durante a exposição Tarsila Popular, no MASP, no ano passado, os brasileiros tiveram o gosto de ver a obra de volta ao país, nem que de passagem por somente alguns meses.

Bibliografia/Links:

Graça Proença, Descobrindo a história da arte, Editora Ática, 2006, p. 198-212.

Ferreira Gullar, Arte contemporânea brasileira, São Paulo, Lazuli, 2012, p. 179-180.
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Daniel Rangel, “Abaporu pertencer a museu argentino é bom para arte brasileira” in Folha de São Paulo, [Online]. Consultado em 21/09/2020.
https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/07/abaporu-pertencer-a-museu-argentino-e-bom-para-arte-brasileira.shtml

Regina Teixeira de Barros, “Abaporu” in Malba, [Online]. Consultado em 21/09/2020.
https://coleccion.malba.org.ar/abaporu/

Edison Veiga, “Abaporu: a história do quadro mais valioso da arte brasileira” in BBC News Brasil, [Online]. Consultado em 21/09/2020.
https://www.bbc.com/portuguese/geral-47808327

“Abaporu” in Enciclopédia Itaú Cultural, [Online]. Consultado em 21/09/2020.
https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra1628/abaporu

“A negra” in Enciclopédia Itaú Cultural, [Online]. Consultado em 21/09/2020.
https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra2322/a-negra

“Antropofagia” in Enciclopédia Itaú Cultural, [Online]. Consultado em 21/09/2020.
https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra1634/antropofagia

“Biografia” in Tarsila do Amaral – Site oficial, [Online]. Consultado em 21/09/2020.
http://tarsiladoamaral.com.br/biografia/

“Entrevista com Tarsilinha do Amaral e Maria Adelaide Amaral” in Conversa com Bial – Globoplay, [Online]. Consultado em 21/09/2020.
https://globoplay.globo.com/v/7685905/

“Tarsila do Amaral” in Enciclopédia Itaú Cultural, [Online]. Consultado em 21/09/2020.https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa824/tarsila-do-amaral

“Tarsila Popular” in MASP, [Online]. Consultado em 21/09/2020.
https://masp.org.br/exposicoes/tarsila-popular

Fonte das imagens:

https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra1634/antropofagia

https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra2322/a-negra

https://coleccion.malba.org.ar/abaporu/

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