Amor, loucura e ciência em ‘A pele que habito’ de Almodóvar

O enredo da película “A pele que habito”, de Almodóvar, nos envia a reflexões acerca do modus como nos relacionamos com o outro na contemporaneidade. O diretor, pelas ações de um médico pesquisador, faz jorrar a sanha científica que impera nos dias atuais. Assim como retrata em sua própria filha a esquizofrenia generalizada que nos assola. Tenho a impressão que “A pele que habito” é antes de mais nada um filme que traz um reclame ético e de formação da identidade. Uma necessária mostra da atenção que devemos ao outro e que, exatamente pela liquidez do momento presente, necessitamos revisitar. Nesse mesmo rumo, podemos ler outra questão quando percebemos um dos problemas que o capitalismo também propicia, ora, quando Robert sequestra Vicent, enxergamos as apropriações que as classes dominantes realizam em face das classes menos favorecidas – um médico sequestra a vida de um funcionário de uma loja de roupas, nada mais evidenciador de uma desigualdade que é latente no modus de vida no qual reina o capital.

Robert está envolvido em experimentos que deixam a comunidade médica preocupada: seus comparsas são enganados, ele não se importa com o outro que se torna outra, com a mãe que não sabe o paradeiro do filho, com uma identidade que é furtada a partir de suas intenções de vingança e frustração patológicas. A sua governanta, que também é sua mãe, não se importa com a morte do filho que só lhe traz contratempos. A esposa de Robert não se preocupa com nada quando se depara com sua realidade estética. O amor e a loucura convivem também com o personagem de Robert. Ora, poder-se-ia mesmo argumentar que toda a dedicação de Robert por salvar sua esposa seria a maior prova de amor, ou, como veremos, a maior prova de loucura. Bom, descobrimos aqui mais uma face do filme. Trata, também, de relações amorosas, mesmo que relações as mais diversificadas e diferentes. A relação de amor do cirurgião com sua obra. A relação de amor de um homem com uma mulher que ele quis eterna. O amor versus a sanidade. O amor em oposição à nossa finitude, humana.

Deuses e homens. Esse traço fica presente no filme quanto Robert não deixa morrer sua esposa. Quando não deixa morrer sua filha psicologicamente comprometida. Pois, ao se utilizar do jovem que supostamente a havia violentado, comete algumas transgressões humanas, que desde sempre foram relegadas aos deuses – não podemos imaginar maior questão ética do que esta. O fato da filha de Robert ter sido supostamente violentada não o outorga a possibilidade de realizar justiça com as próprias mãos, no entanto, é o que ele faz o tempo inteiro no filme, e daí questionamos: o saber científico afastado da ética em relação ao outro não elevaria o humano a um patamar maior que ele e por isso mesmo causador de problemas que nem ele poderia resolver? De outro lado, frear a evolução científica seria possível? Seria mesmo válido fazê-lo? Quais os limites da pesquisa? Maquiavel justificava os meios se acaso os fins fossem alcançados, estaríamos, desde agora, condenados a isto perante os experimentos científicos? Da mesma forma que Robert se apropria, divinamente, de sua vítima, ele a recria, constitui para ela uma nova forma de vida, um novo rosto, um novo nome e outro sexo. O homem substitui o deus e em seu trono realiza tudo aquilo que não era permitido quando ainda era humano. Estaríamos, portanto, criando uma nova forma de humano? Ou, no extremo, isso que entendemos por homem não seria mais parâmetro para fazermos esses questionamentos?

Assim, a morte fica preterida em relação ao rosto que se repete em outra pessoa. A vicissitude de uma traição é resolvida com a morte, indiferente. A vingança é realizada pelo furto de outra vida. Robert, ao se apoderar de Vicent, o torna Vera. Vera, ao se tornar mulher, não é mais Vicent, o é apenas à medida de Robert. A ideia de morte, como já fora superada pelas possibilidades científicas, nem é contraste com a ideia de vida. Portanto, banalizar o evento morte nos leva a banalizar também a vida, e assim o outro, e ao fim a nós mesmos. Nesse sentido, apoderar-se do outro e torná-lo à nossa medida é o que ocorre em todas as relações que não se querem éticas por excelência, pois, antes da racionalidade o homem se compõe de eticidade, precisamos do outro para existir. A poesia da vida está no olhar do outro, sempre a partir daquilo que vem, sempre a partir daquilo que nos convida a ser, sempre a partir daquilo que não sabemos. Senão, a pele não nos mostra a nós mesmo, apenas nos faria habitar.

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