Aqueles livros que você jamais conhecerá

São muitos livros os que pretendemos ler para caber em tão pouco tempo de vida. Não há alternativa que não viver num misto de angústia e esperança literária: até que gostaríamos de ler muitos dos clássicos e dos excelentes lançamentos que são publicados a todo instante, mas não temos o bastante para que isso seja possível. E não se diz aqui apenas do tempo “livre” para a leitura. Mesmo que tivéssemos todo o tempo do mundo sem qualquer compromisso para preenche-lo que não a própria leitura, o limite que nos é imposto pelo tempo biológico de cada um impede que todas as leituras pretendidas sejam possíveis. Resta o pesar, conforme aqui já pontuado – cuja aflição, gerada pelo pesar, pode ser afastada somente pelo prazer de seguir lendo e aumentando cada vez mais a nossa lista de leituras.

Imagine agora que para além daquela sua interminável lista dos próximos livros a serem lidos, há uma outra do mesmo tamanho – ou ainda maior -, que é composta por diversas obras magníficas sobre as quais você nunca ouviu falar – e jamais irá. Essa lista é invisível, mas nem por isso deixa de existir. Essa lista é tangível, o que significa não se tratar de algo presente apenas em algum universo literário paralelo. Essa lista apenas ainda não foi escrita, mas é como se estivesse presente, preenchendo aquele espaço vazio na sua estante que aguarda novos livros. Essa lista é constituída por livros que existem, que já foram escritos, que estão aí, presentes nas prateleiras das livrarias, de bibliotecas ou de amigos, podendo inclusive estarem circulando entre mãos através de empréstimos. Esses livros já estão aí, presentes no corpóreo. Apenas não estão na sua estante, na sua lista.

Já imaginou quantos livros assim existem?

Claro que há vários e vários livros supérfluos que jamais estariam na sua lista, tanto na concreta como na invisível, pois a existência deles é de pouca ou nenhuma significância. Claro também que há aqueles que podem ser assim considerados, insignificantes, apenas por você, já que no meio literário o convencimento muitas vezes se trata de uma questão de gosto. Mas o fato é que há muitos livros bons circulando por aí que você sequer faz ideia que existam. Desde clássicos até obras mais atuais, existem diversos livros que não fazem parte da sua lista ou estão ausentes em sua estante, constituindo esse ‘não estar aí’ uma verdadeira falta!

Nada há o que fazer. Por mais que possamos acompanhar de forma mais fiel possível o mundo da literatura, conhecendo pelo menos algo mínimo sobre os clássicos e estando antenados nos mais recentes lançamentos literários, há algo, e muito, que sempre nos escapa. É impossível contemplar o todo – e aqui se diz, frise-se, da própria lista de próximos livros a serem lidos. Se não há como ler todos os livros que gostaríamos, conhecendo-os, o que dizer desses outros, os da lista invisível, que nos escapam ao conhecimento sua própria existência?

Assim como quando da constatação das nossas intermináveis listas de leituras, a angústia e a aflição são os sentimentos tormentosos que nos rondam e nos preenchem em cheio quando nos damos conta desse mundo sem fim literário que jamais será alcançado. Pior, jamais será conhecido. É uma espécie de vazio existencial que nos assola ao perceber essa falta que nos constitui enquanto leitores apaixonados. Mas é algo que faz parte do nosso todo como leitores. É também uma forma de condição de possibilidade para que possamos ser considerados bons e verdadeiros leitores. É algo dentro do todo, portanto, responsável por sua constituição. É o que nos torna leitores, demasiados leitores.

Para muito além daquele pouco que chega ao nosso conhecimento, queremos sempre saber mais, buscando mais, desbravando mais, aumentando assim paradoxalmente a nossa sede enquanto também a saciamos com as obras que conseguimos alcançar. É um agir cíclico que mantém o nosso trilhar, o que significa que, de todo modo, acabamos sempre avançando alguns passos. Faz parte.

Aqueles livros que você jamais conhecerá são conhecidos por alguns e lidos por outros. O todo literário acaba sendo preenchido, o que significa que a coisa funciona. Somos apenas uma pequena parte dele. Assim, talvez o sentimento de angústia pela constatação da falta seja um dos meios responsáveis por a coisa continuar fluindo, seguindo, movimentando-se. A falta é condição de possibilidade para o trilhar literário. Sigamos, compelidos pela aflição de leitores ávidos por novos livros, conhecidos e desconhecidos, fazendo com que a roda que move o mundo literário continue sempre girando.


Fonte da imagem:

https://thumbs.dreamstime.com/b/estante-de-madeira-com-livros-antigos-em-uma-biblioteca-um-tesouro-do-conhecimento-humano-111199588.jpg

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