OBRA DE ARTE DA SEMANA: O imaginário fantástico de Wilma Martins

A artista mineira Wilma Martins se expressou através de diversas técnicas – gravura, pintura em tela, aquarela, desenho – ao longo de seus mais de 60 anos de carreira, mas acredito que seus trabalhos mais interessantes foram justamente realizados usando o desenho, técnica muitas vezes deixada em segundo plano, vista somente como preparação para pinturas e escultura. Talvez, a maestria de seus desenhos se deva ao fato de que a artista trabalhou em revistas durante bastante tempo, como diagramadora, e, sobretudo como ilustradora, tendo já criado também ilustrações para livros.

A poética série Cotidiano, criada entre 1975 e 1984, não é feita exclusivamente de desenhos – meus favoritos, dos quais falaremos aqui -, mas também de telas, e nos mostra ambientes domésticos banais invadidos pela natureza, evocando uma aura de sonho e fantasia.

Segundo a própria desenhista, “importa sonhar a partir do cotidiano e tornar o sonho mais real que a realidade, quando esta é insatisfatória.” (Enciclopédia Itaú Cultural).

O recurso encontrado pela artista para enfatizar ainda mais o contraste entre essas duas realidades, que se tornam uma em sua obra, é desenhar os interiores somente através de linhas em nanquim preto, colorindo em aquarela o mundo natural que os invade. Assim, temos ainda mais a impressão de que se trata do imaginário adentrando o mundo real em preto e branco. Nas telas que também compõe a série, os ambientes são geralmente pintados em cinza e branco, mantendo assim esse contraste entre monocromia e cor.

 

Ainda é interessante notar, como apontou Ferreira Gullar,  que esses lugares estão sempre vazios, não há nenhum ser humano que o habite naquele momento captado pela artista, “como se ela se perguntasse: o que acontece na casa quando não há ninguém?”.

Também é curioso como sua assinatura é colocada em objetos, como se fosse a marca do fabricante, e se confunde com a obra, harmonizando-se a ela, ao invés de ser um acúmulo de letras no canto inferior direito do papel, como é o costume da maioria dos artistas.

 

Bibliografia/Links:

Ferreira Gullar, Arte contemporânea brasileira, São Paulo, Lazuli, 2012, p. 47-49.
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Valéria Piccoli, “Wilma Martins” in The Hammer Museum, [Online], consultado em 24/08/2020.
https://hammer.ucla.edu/radical-women/artists/wilma-martins

“Wilma Martins” in Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira, [Online], consultado em 24/08/2020.
https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa9712/wilma-martins

“Wilma Martins em livro” in O Paralelo – Bolsa de Arte, [Online], consultado em 24/08/2020.
https://www.bolsadearte.com/oparalelo/wilma-martins-em-livro 

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