Feridas: do manicômio à feira de arte

Passando por milhares obras de arte expostas na SP-Arte 2022, umas das que mais me chamaram atenção foram as da artista Juliana Sícoli, na Galeria de Babel (São Paulo e Nova Iorque).

Subitamente atraída por papeizinhos em tons de vermelho e roxo alfinetados num fundo branco, emoldurados e envidraçados, logo pensei em como aquelas peças ficariam numa bela sala de estar. Designer por formação, pensei logo na estética. Mas o que não poderia imaginar é como aquela obra me tocaria de verdade, depois de saber sua história e a jornada de sua criadora. E é por isso que amo a arte, ela nos toca quando a vemos e toca ainda mais quando a compreendemos.


Juliana Sícoli, CARTOGRAFIA I, 160 x 125 x 7 cm
2022. 

Juliana é filha de psicólogos, e como pude ouvir através das palavras da fundadora da galeria, Jully Fernandes, sua mãe trabalhou nos antigos manicômios femininos que existiam no Brasil há não tanto tempo atrás. Dessa forma, a artista teve acesso a cartas escritas pelas pacientes, que nunca chegaram a seus familiares, e ela transforma a dor e injustiça vividas por essas mulheres em arte. Para que, de alguma forma, essas histórias não sejam esquecidas e nos façam refletir.

Tentando compreender mais sobre a obra toda, começamos a observar a parede lateral, onde o estande da galeria se dividia com o da galeria vizinha. Ali, havia três caixinhas de acrílico, nas quais, de um lado, podemos ver fotos de mulheres, e, do outro, fragmentos de suas cartas bordados no verso das imagens. Assim, na frente das fotografias, vemos essas frases somente como linhas do reverso do bordado, sem poder compreender as palavras que formam do outro lado, fazendo alusão ao que as pacientes não podiam deixar transparecer em seus rostos, mas escreviam em suas cartas.


Juliana Sícoli, 
RECONSIDERE O ACTO DE VIOLÊNCIA QUE PRATICOU CONTRA SUA FILHA, costura sobre fotografia impressa em papel algodão, 18 x 24, 2020. 


Juliana Sícoli, NÃO PENSE QUE ME SUJEITAREI A VIVER NO LAR DE SULTÃO
, costura sobre fotografia impressa em papel algodão, 18 x 24, 2020. 

Ao lado temos mais três caixas acrílicas, essas, por sua vez, com camadas de papeis, sendo os primeiros rostos com fragmentos faltantes, e os demais papeis em tons de roxo e vermelho, representando as várias camadas das feridas das internas, quanto mais fundo, mais escuro, sejam essas feridas físicas ou emocionais.


Juliana Sícoli, f
otografias impressa em papel algodão recortadas e adesivadas em acrílico,18 x 24 x 82021. 


Juliana Sícoli, f
otografias impressa em papel algodão recortadas e adesivadas em acrílico,18 x 24 x 82021. 


Juliana Sícoli, f
otografias impressa em papel algodão recortadas e adesivadas em acrílico,18 x 24 x 82021. 

Por último, a artista cria os dois quadros me levaram a querer compreender melhor sua obra. Entre o fundo branco e o vidro espelhado, fragmentos de papeis roxos e vermelhos fixados por alfinetes nos trazem pedaços das feridas causadas pelos manicômios e suas atrocidades, e se olharmos com atenção, esses fragmentos mostram partes de rostos, para nos lembrar que por trás de cada ferida, cada hematoma, existe vida.


Juliana Sícoli, CARTOGRAFIA II, 160 x 125 x 7 cm
2022. 

 

Referências: Conversa com Jully Fernandes da Galeria de Babel.

https://www.galeriadebabel.com.br/artists/52-juliana-sicoli/works/

 

Fontes das imagens:

https://www.galeriadebabel.com.br/artists/52-juliana-sicoli/works/ 

 

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