OBRA DE ARTE DA SEMANA: Performance “Ritmo 0” de Marina Abramović

Marina Abramović, Rhythm 0 (Ritmo 0), 1974. Performance, 6 horas. Studio Morra, Nápoles, Itália.

O que eu aprendi é que se você deixar nas mãos do público, eles podem te matar. Eu me senti realmente violada. Cortaram minhas roupas, enfiaram espinhos de rosa na minha barriga, uma pessoa apontou uma arma para minha cabeça e outra a retirou. Isso criou uma atmosfera agressiva. Depois de exatamente 6 horas, como eu tinha planejado, me levantei e comecei a caminhar em direção ao público. Todos fugiram para escapar de uma confrontação presente.

A performance descrita acima por Marina Abramović é a quinta e última da série Ritmo (1973-1974), a primeira série de performances da artista, caracterizada por um desafio de corpo e mente. Ritmo 0 é, junto com Ritmo 5, na qual a artista se deitou no meio de uma estrela em chamas e acabou desmaiando por falta de oxigênio, a mais radical da série e uma das mais extremas de toda a história da performance.

Frente a artista, parada, havia uma mesa com 72 objetos de todo tipo: perfume, rosa, comida, vinho, correntes, tesoura, lâminas, uma arma carregada… As instruções eram as seguintes:

Instruções Há 72 objetos na mesa que se pode usar em mim como quiser. Performance. Eu sou o objeto. Durante esse período eu me responsabilizado totalmente.

Duração: 6 horas (18h – 2h)

O público começou tímido. Brincou com a rosa, beijou, mexeu seus braços como uma boneca, enquanto a artista permanecia imóvel. Em seguida, as pessoas começaram a ficar mais violentas. Fizeram cortes em sua pele, chuparam sangue de seu pescoço, até que a arma carregada foi colocada em sua mão, com seu próprio dedo no gatilho. E Marina continuava imóvel, tentando descobrir até que ponto o público, que já havia se tornado parte da obra, iria. Houve uma briga entre os presentes. Parte deles se opunha aos que brincavam com a arma. O galerista interviu e jogou a arma pela janela. Em seguida, os participantes continuaram de maneira violenta: suas roupas foram cortadas, espinhos espetados em sua barriga.

Depois de exatamente seis horas, o galerista informou que a performance havia terminado e a artista começou a se mexer, voltou a ser ela mesma, e os presentes simplesmente saíram correndo, pois não poderiam encará-la como uma pessoa, após ter sido usada como um objeto.

Segundo críticos, a artista teria realmente deixado que a audiência fizesse qualquer coisa, mesmo estupro ou assassinato. Entretanto, ela deixa claro que não queria morrer, mas simplesmente descobrir os limites de seu próprio corpo. Segundo ela, não se trata do corpo – que não possui limites -, mas da mente. A concentração e autocontrole impressionantes são características da artista. Sobre outra obra da série, Rhythm 10 (Ritmo 10), ela disse algo que poderia se tratar de quase todas as suas performances:

Uma vez que você entra no estado de performance, você pode impelir seu corpo a fazer coisas que jamais você normalmente faria.

Também é interessante notar, como apontou Janine Ribeiro, a maneira que artista trabalha, ao mesmo tempo, com o planejado e o inesperado. Suas performances são extremamente bem pensadas e organizadas previamente, o tempo, os objetos, etc. Entretanto, a surpresa é uma constante. Qualquer coisa pode acontecer – no caso de Ritmo 0, através da interação do público – e ela continua totalmente comprometida, fazendo o que havia planejado.

O importante dessa obra é que ela mostra o lado selvagem do ser humano quando tudo lhe é permitido, quando um ser imóvel e indefeso, com o qual se pode fazer qualquer coisa sem punição, está a sua frente. Entretanto, nem todos os presentes concordaram com tudo. Seria medo ou uma verdadeira preocupação com o bem estar alheio?

Abaixo, um vídeo com algumas fotos, no qual Marina conta sobre a performance: https://www.youtube.com/watch?v=xTBkbseXfOQ

 

Bibliografia, links e fontes das imagens:

“Marina Abramovic on performing “Rhythm 0” (1974)” https://www.youtube.com/watch?v=xTBkbseXfOQ

Flávia Dourado, “As múltiplas facetas da arte performativa de Marina Abramovic” in Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Consultado em 10/10/2017. http://www.iea.usp.br/noticias/marina-abramovic

http://www.moma.org/explore/multimedia/audios/190/1972

https://mai.art/

https://www.ufrgs.br/arteversa/?p=134

https://www.moma.org/calendar/exhibitions/964

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