OBRA DE ARTE DA SEMANA: ‘For the Love of God’ de Damien Hirst


Damien Hirst, For the Love of God, platina, diamantes e dentes humanos, 17,1 x 12,7 x 19 cm, 2007. Coleção particular.

Sim, meus queridos leitores, o que vocês estão vendo é exatamente o que parece – uma caveira repleta de diamantes, 8601, especificamente, vendida por 100 milhões de dólares, um recorde na arte contemporânea e na própria obra do artista, que cria trabalhos valiosíssimos há tempos.

Pois bem, a história da obra é a seguinte: O artista comprou uma caveira de um taxidermista e a enviou para análise. O resultado revelou que o crânio pertenceu a um homem de cerca de 35 anos que viveu entre 1720 e 1810. Os dentes foram retirados e limpos por um dentista e o restante serviu para o molde das 32 placas de platina que hoje compõe a obra. Em seguida, os joalheiros Bentley e Skinner, renomados joalheiros reais, terminaram de realizar seu trabalho incrustando os 8601 diamantes na peça, com um destaque para uma massiva pedra de 1106,18 quilates na fronte, diamante este, inclusive, que sozinho custou mais de 4 milhões de libras. O detalhe desse grande diamante, que bem lembra um terceiro olho, foi inspirado pelo personagem Tharg the Mighty, figura poderosa que controla o universo, oriunda dos quadrinhos 2000 AD, lidos por ele na infância. Hirst, que investiu do bolso todo o dinheiro para a realização da obra, não se lembra se o total ficou em 10 ou 15 milhões de libras esterlinas.

A ideia inicial veio dos crânios decorados astecas e das clássicas representações de diversas épocas do chamado memento mori – uma máxima latina que alude à morte certa de todos os viventes. Apesar do tema pesado da morte, ele escolheu o material diamante para cobrir toda a peça por diversas razões. Primeiramente, seu brilho transcendental se opõe a ela, quase a vencendo, lembremos da famosa frase publicitária dos anos 40 – “diamantes são eternos”. Há uma oposição clara entre vida-brilho/claridade-imortalidade e morte-escuridão.

Segundo o artista:

“What’s the maximum I could do as a celebration against death? When you look at a skull, you think it represents the end, but when you see the end so beautiful, it gives you hope.”

“O que é o máximo que eu poderia fazer como uma celebração contra a morte? Quando você olha para uma caveira, você pensa que representa o fim, mas então você vê o fim tão bonito que isso te dá esperança.”

“Diamonds are about perfection and clarity and wealth and sex and death and immortality. They are a symbol of everything that’s eternal, but then they have a dark side as well.”

“Diamantes são sobre perfeição e claridade e riqueza e sexo e morte e imortalidade. Eles são um símbolo de que tudo é eterno, mas tem um lado negro também.”

Os diamantes também acabam sendo curiosos por seu valor especulativo. Seriam eles simplesmente pedrinhas brilhantes ou verdadeiras traduções de perfeição e beleza? Trata-se de coisas mortas pelas quais mata, pelo seu valor especulado, mas que, na realidade, não possuem verdadeiramente nenhuma utilidade prática, assim como a arte, afinal de contas.

Nesse ponto, chegamos à parte mais irônica da obra, que não é dita claramente pelo artista, mas que parece ser uma mensagem subliminar lida apenas pelos que conhecem o mundo da arte contemporânea, no qual obras de valor estratosférico são compradas por um punhado colecionadores e especuladores riquíssimos. Corroborando esse ponto, temos toda a publicidade feita em torno do valor da escultura, amplamente divulgado por toda a mídia. É muito mais do que mostrar o quanto o trabalho do artista vale, trata-se muito mais de tocar o exibicionismo e a ostentação da sociedade contemporânea. O mais curioso ainda é que quem mais lucrará com a venda dessa obra, que critica a forma capitalista que alguns apreciam arte, é o próprio artista que faz a crítica. Em vez de hipocrisia, vejo zombaria – as caveiras parecem sempre estar rindo, não? – , e por que não, esperteza, mostrando uma relação bastante ambígua entre a figura do artista, por natureza um ser rebelde, e o colecionador, que de certa forma detém o poder (dinheiro), mas ao mesmo tempo venera o artista.

Como pontuou inteligentemente Richard Dorment:

“For the Love of God questions something about the morality of art and money.”

“For the Love of God questiona algo sobre a moralidade da arte e do dinheiro.”

É interessante como uma peça que poderia parecer tão brega se torna um objeto cheio de significado, e até mesmo zombaria e crítica, quando ligado à sua história e à história de quem o criou.

Damien Hirst também criou outra caveira ainda mais polêmico coberto de diamantes, usando como molde um crânio de um bebê oriundo de uma coleção do século XIX, quando colecionar de objetos bizarros, tais como o crânio de um bebê de 40 semanas, era um must.


Damien Hirst, For Heaven’s Sake, platina e diamantes rosa e branco, 8,5 x 8,5 x 10 cm, 2008.

Ambos os títulos das obras significam “Pelo Amor de Deus” e foram inspirados pelas frases proferidas pela mãe do artista no início da carreira ao ouvir sobre suas ideias de futuras criações. Também, a alusão ao universo cristão é frequente no trabalho do artista, que inclusive, quando mostrou pela primeira vez a escultura For the Love of God, em sua exposição na galeria White Cube, em Londres, também apresentou, entre outras pinturas que tratam de vida e morte, uma imagem de uma pomba branca, símbolo de paz e do Espírito Santo, de titulo Incomplete Truth (Verdade Incompleta), uma referência talvez às lacunas deixadas pela religião e, para alguns, somente completadas pela fé.

No vídeo abaixo, alguns parte do processo de produção da obra:

http://www.damienhirst.com/video/2007/ftlog-interview

Bibliografia/Links:

“For Heaven’s Sake” in Damien Hirst website, [Online]. Consultado em 19/06/2018.
http://www.damienhirst.com/for-heavenas-sake

 “For the Love of God” in Damien Hirst website, [Online]. Consultado em 19/06/2018.http://www.damienhirst.com/for-the-love-of-god

“The Making of ‘For the Love of God’” in Damien Hirst website, [Online]. Consultado em 19/06/2018.
http://www.damienhirst.com/video/2007/ftlog-interview

Richard Dorment, “For the love of art and money” in The Telegraph, [Online]. Consultado em 19/06/2018.
https://www.telegraph.co.uk/culture/art/3665529/For-the-love-of-art-and-money.html

Jonathan Jones, “Damien Hirst’s skull tasteless? That’s the point” in The Guardian, [Online]. Consultado em 19/06/2018.
https://www.theguardian.com/artanddesign/jonathanjonesblog/2011/feb/22/damien-hirst-diamond-skull

Jeremy Lovell, “Hirst’s diamond skull sells for $ 100 million” in Reuters, [Online]. Consultado em 19/06/2018.
https://www.reuters.com/article/us-arts-hirst-skull/hirsts-diamond-skull-sells-for-100-million-idUSL3080962220070830

Roya Nikkhah, “Damien Hirst courts controversy with diamond-studded baby skull” in The Telegraph, [Online]. Consultado em 19/06/2018.
https://www.telegraph.co.uk/culture/art/art-news/8247686/Damien-Hirst-courts-controversy-with-diamond-studded-babys-skull.html

Fontes das imagens:

http://www.damienhirst.com/for-the-love-of-god

http://www.damienhirst.com/for-heavenas-sake

 

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