OBRA DE ARTE DA SEMANA: ‘Ciclotrama 141 (épura)’, de Janaina Mello Landini


Janaina Mello Landini, Ciclotrama 141 (épura), barbante e fita crepe, 20 metros de comprimento, 2019. Site-specific para a exposição Aqui, agora na Zipper Galeria, em São Paulo, Brasil.

A obra Ciclotrama 141 (épura) – um trabalho site specific, ou seja, criado especialmente para aquele local – paira sobre o salão principal da Zipper Galeria, em São Paulo. 120 quilos de barbante são suspensos no ar apenas por fita crepe que fixa suas múltiplas extremidades nas paredes. Dessa maneira, a artista explora conceitos de arquitetura – área na qual se graduou -, física e matemática para manter algo tão pesado pendurado por um material com pouco poder de fixação através da divisão de seu peso.

Anteriormente, nas outras obras da série Ciclotrama – um neologismo, palavra criada pela própria artista para descrever o trabalho que desenvolve desde 2010 -, Janaína Mello Landini desfazia cordas industriais e prendia suas extremidades com pregos. Mas antes de seus assistentes firmarem os pregos, a artista determinava os locais nos quais estes deveriam ficar através de fita crepe. Assim, surgiu a ideia de suspender a instalação usando somente esse material. A construção da instalação também difere das outras criações desse conjunto, pois, em vez de desmembrar cordas já existentes, o movimento é o contrário, sendo a corda suspensa trançada pela própria artista usando 120 rolos de barbante.

O resultado é uma estrutura branca, suspensa por fita crepe quase branca, em paredes também muito brancas, criando assim uma atmosfera que senti como imaculada e atemporal.

O tempo, inclusive, é importante no trabalho da artista, já que o trançar e destrançar das cordas é um trabalho intuitivo e longo – para criar a instalação na Zipper foram necessários 12 dias. O leitor pode estar se perguntando se os múltiplos de 12 são propositais, como eu mesma questionei, entretanto, trata-se apenas de uma coincidência.

A questão do tempo também está presente no título da exposição: Aqui, agora. O hic et nunc – em latim, “aqui e agora”, exatamente – que diferencia as obras de arte originais das suas reproduções, as primeiras irradiando uma aura própria somente perceptível através do contato direto com elas, como discutido por Walter Benjamin em seu escrito The Work of Art in the Age of the Mechanical Reproduction (A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, em português).

Esse “aqui e agora” está ligado ao ponto específico no qual o indivíduo insere-se no espaço em um determinado momento. Nas telas mostradas no segundo andar da galeria, além das cordas desmembradas, há uma espécie de bordado nas telas que representa fragmentos de mapas, evidenciando assim a importância do conceito de espaço. A instalação do térreo parece refletir essa cartografia, através de três linhas riscadas na parede, representando os eixos cartesianos. Enquanto isso, os fios de barbante que se cruzam e se sobrepõe também lembram neurônios, ou seja, conexão, mas não somente conexões físicas, já que que na era da internet, o “aqui e agora” pode identificar tanto um ponto no espaço físico, quanto virtual. Dessa maneira, o trabalho de Landini trata de questões extremamente contemporâneas, tais como a interconectividade e interdependência.

Veja abaixo, o processo de criação de Ciclotrama 141 (épura):

 

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