OBRA DE ARTE DA SEMANA: Caminhante sobre o mar de névoa de Caspar David Friedrich


Caspar David Friedrich, Caminhante sobre o mar de névoa, óleo sobre tela, 98,4 x 74,8 cm, 1817. Conservada na Hamburg Kunsthalle, Hamburgo, Alemanha.

Caminhante sobre o mar de névoa, por vezes conhecido como Viajante sobre o mar de névoa, ou simplesmente Viajante, é uma icônica pintura do alemão Caspar David Friedrich e um exemplo excelente de sublime.

O conceito de sublime surgiu na Antiguidade, sendo o anônimo conhecido como Pseudo-Longino o primeiro a escrever sobre o tema. Segundo ele, trata-se da expressão de grande e nobre sentimento, levando o espectador ao êxtase através da contemplação da obra. No século XVIII, século dos viajantes e curiosos, no qual se insere a pintura em questão, o sublime se associa à contemplação da natureza, de paisagens inóspitas e desoladas, que despertam sentimentos de grandeza do universo e pequenez do indivíduo, chegando por vezes a sensações de fascínio, melancolia, mistério e inquietação até o ponto da dor e do medo. O sublime, então, se encaixa perfeitamente no período romântico dominado pelas paixões humanas e sua representação na arte e na literatura. Quanto ao exemplo específico de cenas montanhosas, no tratado Telluris teoria sacra, Thomas Burnet coloca a experiência junto às montanhas como elevação da alma em direção a Deus.

Na maioria de suas obras, Friedrich escolhia representar exatamente essas paisagens melancólicas ou assustadoras. No caso de Caminhante sobre o mar de névoa, vemos o artista se servir de um recurso bastante raro em outra de suas criações: a presença de um personagem de costas que encara o vazio e nos permite perceber a cena e senti-la através deste. Em outras obras, geralmente existe mais de um personagem – ou não existe nenhum – de dimensão bem menor em relação à natureza representada a sua volta; não tendo assim uma figura humana como centro da composição e um de seus elementos mais importantes como acontece na pintura em questão. Também se trata uma minoria em seu trabalho as telas verticais; o típico formato “paisagem” sendo predominante na maioria de suas pinturas.


Caspar David Friedrich, Dois homens contemplando a lua, óleo sobre tela, 35 x 44,5 cm, 1819-1820. Conservada na Galerie Neue Meister, Dresden, Alemanha.


Caspar David Friedrich, A abadia no bosque de carvalhos, óleo sobre tela, 110 x 171 cm, 1809-1810. Conservada na Alte Nationalgalerie, Berlim, Alemanha.

Aqui é como se nós mesmos nos transportássemos para esse local, entrássemos na tela através das costas do homem que não vemos o rosto. Podemos imaginar uma expressão serena, ao mesmo tempo tentando captar a vastidão de informações visuais a sua frente e absorto em seus pensamentos. É o tipo de obra que hipnotiza o observador, prendendo-o em seus próprios devaneios através da pintura, se distanciando pouco a pouco desta e se perdendo no universo interior de sua própria mente. É a grandeza do exterior e seus lugares misteriosos, inquietantes, melancólicos e sublimes traduzindo a mesma realidade no interior de cada indivíduo. A névoa acentuando essa sensação de mistério e contribuindo para que não possamos distinguir com exatidão o local real onde se encontra o indivíduo ponto central da composição.

Entretanto, segundo Johannes Grave, mesmo que os espectadores tenham desde primeiro momento de apresentação da obra, no século XIX, se identificado ao personagem dessa maneira, essa nunca foi a preocupação principal do artista, que poderia, ao contrário, ter a intenção de convidar o observador a uma reflexão sobre a visão. Apesar disso, a obra fascina pelos aspectos que talvez não tenham sido pensados por seu criador, sendo um típico exemplo de obra que ultrapassa as intenções do artista e se torna universal.

Bibliografia:

Umberto ECO (Dir.), Storia dela Bellezza, Bompiani, Milão, 2004, p. 274-283.

Johannes GRAVE, “Wanderer über dem Nebelmeer” in Hamburg Kunsthalle [Online], consultado em 04/04/2017. http://www.hamburger-kunsthalle.de/sammlung-online/caspar-david-friedrich/wanderer-ueber-dem-nebelmeer

Fontes das imagens:

http://www.hamburger-kunsthalle.de/sammlung-online/caspar-david-friedrich/wanderer-ueber-dem-nebelmeer

http://www.smb.museum/ausstellungen/detail/der-moench-ist-zurueck.html

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Caspar_David_Friedrich_-_Zwei_M%C3%A4nner_in_Betrachtung_des_Mondes.jpg

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